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Ida, Sé, Porto

Ida, Sé, Porto

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NO Centro Histórico do Porto há doze anos, para onde veio viver depois de conhecer o marido, Ida sente-se em casa. Antes, vivera em Aldoar, no extremo noroeste do Porto, mas as recordações que guarda da vida nessa freguesia não são as melhores. Na Sé, primeiro, e agora na Vitória, ali onde o Centro Histórico acaba e a Baixa começa, Ida descobriu outra realidade, bem distinta da precedente, e apesar de, a início, estranhar a forma de estar característica dos locais, rapidamente com ela se identificou: “Em Aldoar não se passava nada, simplesmente barracada, muitos barracos, depois veio os bairros, as pessoas foram para os bairros, não é?, dos barracos foram para bairros e… a zona histórica da Sé, para mim, é das zonas mais bonitas do Porto. (…) [Em Aldoar, as pessoas] não têm nada a ver [com as da Sé]! São pessoas que não desenvolvem, vivem ali naquele mundo e não desenvolvem… É essa a diferença, não desenvolvem. Estão ali naquele mundo, não são ativas como as da Sé, não são pessoas pra trabalhar…”.

Quando se mudou para a Sé, a diferença impôs-se a Ida com grande premência: “Estranhei, estranhei muito, porque é uma diferença muito grande”. Mas Ida gostou. E depressa fez dessa diferença a sua nova pele. Ao refletir sobre os últimos doze anos, o balanço é naturalmente positivo: “[Mudei] muito, muito, pra melhor, [estou] muito mais desenvolvida, com atividade pra trabalhar, fazendo um pouco de tudo, tudo o que se puder, não é?”. E não trocaria o local onde vive por nada: “Não, aquilo é um mundo! Aquilo à noite, ali nas Galerias de Paris… é muito bonito, era assim que devia estar a cidade do Porto toda”

Por que razão subsistem, então, tantas ideias negativas sobre certas zonas do Porto e, em especial, sobre o seu Centro Histórico? Ida fala numa incompreensão nascida do desconhecimento: “Não compreendem porque não conhecem. E depois, às vezes, as pessoas falam e não falam a verdade. Não falam verdade e tornam os bairros problemáticos, ou seja, dizem mal dos bairros, coisa que aquilo não é, fazem um filme que aquilo não é, aquilo é muito bonito lá [na Sé], viver ali é muito bonito”.

E então Aldoar? Não padecerá do mesmo mal? Ida não tem a certeza, mas com uma coisa concorda: tal como em Aldoar pouca gente saberá realmente como é a Sé, também na Sé pouca gente sabe como é o dia-a-dia em Aldoar. “Não, porque elas ali vivem mesmo no mundo delas ali, não se importam de mais nada fora, elas vivem mesmo ali, a Rua Escura, a Sé… contactam pouco com outros bairros”. O perto faz-se longe… “É…”, corrobora Ida, “o Porto é pequeno mas torna-se grande…”. 

©susana neves

De repente, as palavras de Ida trazem-nos à lembrança o velho aforismo do filósofo alemão Ludwig Wittgenstein: “Quão difícil, penso, é ver aquilo que está mesmo à frente dos meus olhos!”. Desconhecido não é só o “estrangeiro”, o “imigrante”, aquele que “é de longe”, ainda que conjunturalmente ande por perto. Desconhecido é também, muito frequentemente, aquilo que nos está bem próximo, mesmo à frente dos nossos olhos, como os bairros desse Porto tão pequeno e, ao mesmo tempo, tão grande. Neste sentido, parece claro que o convite que o Olha Lá faz à confluência e confrontação de modos de ver a realidade portuense há de ser válido tanto para o que, sendo desconhecido, anda por perto, como para o que, estando perto, permanece desconhecido.

Por João Queirós (investigados do Instituto de Sociologia da UP) publicado in http://www.10pt.org/

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