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“Heavy Mental” de Vítor Rua

“Heavy Mental” de Vítor Rua

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NÃO é de facto particularmente original dar a esta entrevista o mesmo título que coube ao novo disco de Vítor Rua, mas é tão bom, tão bom, tão bom, que se torna impossível resistir aos seus encantos. Ainda por cima é especialmente adequado ao seu conteúdo. Com selo da Orfeu, Heavy Mental é o mais recente lançamento do ex-GNR, ex-Telectu, o intensamente activo Vítor Rua; um disco que apesar de ter sido gravado num longínquo ano de 1999, numa guitarra construída propositadamente para esse feito, ao primeiro take e sob efeito de substâncias capazes de mudar estados de consciência, só agora viu a luz do dia. Porque assim tinha de ser, porque não havia pressa em fazê-lo. Mas Vítor Rua já tem a cabeça noutro sítio: ao Bodyspace, o músico abriu o jogo todo e contou-nos quais são os seus projectos para o futuro. Numa entrevista directa ao assunto, Vítor Rua não mostrou arrependimentos: só planos para o futuro.

 

Gravaste este disco com uma nova guitarra electro-acústica de dezoito cordas que, segundo li algures, foi construída por ti… Fala-me dessa guitarra…

 

A guitarra não foi construída por mim. Foi construída pelo luthier Gil Oliveira. Eu desenhei com a ajuda inicial do Jorge Lima Barreto e posteriormente com o próprio Gil o design da guitarra. Antes já tinha encomendado ao mesmo luthier uma guitarra de 8 cordas (4cordas de guitarra baixo e 4 e 4 cordas de guitarra eléctrica). Esta tem 18 cordas (6 de nylon e 12 de metal, sendo um híbrido de duas guitarras (guitarra clássica e guitarra de 12 cordas) numa só de um só braço.

Tinha lido que tinhas sido tu a construir o instrumento. De qualquer das formas, a construção de instrumentos é algo que te entusiasma? Achas que a regeneração da criatividade pode também passar por aí?

Como disse eu não construí estas guitarras mas sim o luthier Gil Oliveira. Mas eu construí alguns instrumentos e uso instrumentos inventados por criadores de instrumentos. Para uma determinada camada de músicos, a criação dos seus instrumentos é um factor essencial. Veja-se – por exemplo – o caso do Hans Reichel e o seu “daxophone”.

 

Sei que gravaste este disco em apenas um dia… De facto parece tudo ao primeiro take, cru no bom sentido… Ficou alguma coisa de fora ou está ali tudo o que produziste nesse dia?

 

Eu cheguei a casa com a guitarra pela primeira vez e sentei-me com ela, afinei-a, liguei-a á mesa de mistura, liguei o gravador e meti a gravar… é tudo em tempo real e o meu primeiro contacto com aquela guitarra. Nada ficou de fora e nenhuma alteração foi realizada.

 

Lembras de alguma coisa desse dia para além do facto de teres gravado um disco?

 

Lembro-me de estar todo dia num suspense enorme à espera da hora de ir buscar a guitarra.

 

Este disco foi gravado em 1999 e só agora vê a luz do dia. Porquê? É estranho ver isto cá fora passado tanto tempo?

 

Não. Os meus discos não são para uma qualquer estação de Natal ou Hits de Verão. Vai sair em Fevereiro de 2012 uma caixa com 50 CDs meus originais (nunca antes editados… E em meu nome… Ou seja não se trata de trabalhos que eu realizava com os Telectu). Tenho muita música que nunca foi editada e que o pode ser em qualquer altura. Hoje toda a gente pode editar um CD. Eu esperei o tempo que achei necessário para que este trabalho saísse com dignidade. E foi isso que aconteceu quando conheci o Pedro Passos e foi com essa dignidade e respeito que esta obra viu agora a luz do dia pela prestigiada editora ORFEU.

 

É para ti motivo de orgulho editar este disco na regressada Orfeu? Que memórias guardas desta editora?

 

Acabei de usar na minha resposta anterior o termo “prestigiada” para classificar a editora ORFEU. A ORFEU é um marco na Reprodução Mecânica em Portugal.

 

Heavy Mental tem a ver com algum estado de espírito específico? Espécie de catarse para os tempos que correm?

 

A ter a ver com algum estado de espírito, terá sido o da ânsia de experimentar este novo instrumento que demorou perto de um ano a ser construído, aliado a um estado psicotrópico de cannabis.

 

Tens andado muito activo na escrita de canções de protesto, que tens publicado no Youtube e difundido no Facebook. Para quando uma compilação?

 

Eu sempre fiz isso toda a vida. Antes dos GNR, com os Telectu e continuei até aos dias de hoje. Mas são trabalhos que faço aos quais dou uma importância mais social que musical. Eu não sinto qualquer necessidade de ver esses trabalhos editados e que são centenas de obras ao longo de 30 anos. Talvez um dia alguém se interesse por isso e resolva editar. Eu tenho a minha obra como improvisador e compositor para – essa sim – querer ver editada.

 

Qual foi o último disco que te tirou o fôlego? Pelas boas e más razões?

 

Em que área?… No Rock por exemplo fiquei agradavelmente surpreso com o Le Noise do Neil Young…

 

Assim de repente, e olhando para trás na tua carreira, há alguma coisa de que te arrependas e alguma coisa que deixaste por fazer?

 

Não…

 

A propósito da morte do Jorge Lima Barreto, vi-te comentar acerca das reedições dos Telectu. Há alguma hipótese de isso acontecer nos próximos tempos?

 

Está previsto a reedição de todos os trabalhos dos Telectu em 2013, uma edição da Galeria Perve, um desejo do meu amigo Carlos Cabral, que nos chegou a editar vários trabalhos.

 

O que tens pensado para o futuro em termos de novos projectos, discos, produção musical e não musical?

 

A minha segunda ópera está pronta e quero ver se a meto em cena. Estou a escrever várias composições ao mesmo tempo para vários intérpretes e ensembles. Colaboro neste momento com as coreógrafas Clara Andermatt e Amélia Bentes. Fiz música para os filmes de Paulo Abreu e Albano Jerónimo. Acabei de chegar de um workshop e 3 concertos em Budapeste com a Clara Andermatt e músicos locais e tenho e estou a dar várias conferências sobre música e som pelo país e estrangeiro.

29 de Novembro de 2011

Por André Gomes

andregomes@bodyspace.net

in http://bodyspace.net/

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