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Germano Silva, 80 anos

Germano Silva, 80 anos

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O GERMANO Silva faz 80 anos. Esta é a nossa homenagem, hoje, na Visão. Este homem é uma ilha. «Estórias» de um garimpeiro de histórias. Afinal, espantem-se, talvez haja mesmo um assunto em que Rui Rio e Pinto da Costa estejam de acordo.

O mérito é de um conhecido «mestre dos cantos e recantos» da cidade ou, como se diz ali para os lados das Antas, de um portuense «da história mais pura, da gente anónima, das ruas, dos passeios, dos percursos».

Está visto: se falarmos de Germano Silva, a distância que vai da sede do município ao Estádio do Dragão encurta. A Câmara atribuiu ao jornalista a Medalha da Cidade em 2005 e o autarca Rui Rio releva a sua faceta de «pedagogo da sua memória no presente». Algo que o presidente do FC Porto assinaria por baixo, habituado ao «jeito simples, conversador» de Germano, típico «de quem gosta de partilhar o conhecimento, o que também é um traço das pessoas da nossa cidade».

O jornalista, cronista das histórias e memórias da Invicta, divulgador militante dos seus segredos e enigmas, tem este raro dom de aproximar figuras e personalidades à volta das grandezas e miudezas do burgo, mas fazendo-o «sem se impor a ninguém, tal como o pintor António Cruz faz nas aguarelas».

Palavras reconhecidas do médico Sobrinho Simões para o dia em que Germano chega aos 80 anos, 55 dos quais no jornalismo. Tarimba feita em publicações de referência do País (Flama, Século Ilustrado e O Jornal, por exemplo), sempre a catar as «estórias» de uma cidade inesgotável «e de uma forma que não é chata, nem museológica, nem folclórica», refere o investigador Sobrinho Simões.

Ele, o aniversariante, mantém o encanto curioso de menino. «Não sei tudo sobre o Porto, nem pensar. É fascinante saber que ainda há muita coisa envolvida em mistério», garante.

Um homem na cidade

Um dia disseram-lhe: para seres um bom repórter da cidade, tens de conhecê-la e calcorreá-la.

Era o tempo em que o rapaz nascido em Recezinhos, Penafiel, no ano de 1931, batucava prosa ao ritmo insípido do «aconteceu ontem», alinhavando acidentes e incêndios, sem entusiasmos por aí além. António Brochado, chefe de redação do Jornal de Notícias de outro lustro, abanou o jovem jornalista. «Se aconteceu na Rua da Firmeza, talvez valha a pena saber porque é que a rua se chama Firmeza», dizia, de mãos nos suspensórios, desafiador do instinto do repórter. «A Internet da altura era o anuário. Comecei a interessar-me pelo nome das ruas. Depois, vieram as pessoas e a literatura sobre o Porto…».

A cidade que ele vestia era do seu tamanho: humilde, trabalhadora, carregada de caráter, enfrentando de rosto levantado os dias desgraçados daquela época.

Ele, filho de um guarda-freio dos elétricos, fora marçano, tecelão, carpinteiro, trolha, eletricista, ajudante de motorista, enfim, operário «faz tudo», de macacão e ganga coçada. Andara na fila para o pão e habitara os lugares onde as costuras do Porto se cosiam sem remendos de entreajuda. «Vivi numa ilha, tenho muito orgulho nisso. Foi a minha universidade e o local onde encontrei o melhor sentido de partilha, de comunidade», assume. «Andam sempre ao barulho uns com os outros, mas quando é preciso esquecem-se as desavenças. Uma ilha não é necessariamente um estendal de miséria», atesta Germano.

Da ilha fez-se o homem.

Do contato com os repórteres do JN a quem passava as melhores informações caídas no serviço de urgências do Hospital de Santo António, onde trabalhava, às colaborações desportivas, tornou-se devedor, sempre grato, de um jornalismo que ainda praticou «a escrever à mão, com tinta de aparo».

Nestas e noutras recordações, Germano Silva «representa uma parte da memória do Porto», essa faceta de quem é a própria história e se tornou, também, «recoletor de pequenas e grandes histórias» que ajudam a preservar essa «matéria impalpável que constrói a identidade de uma cidade».

Isto diz o escritor e letrista Carlos Tê.

E que identidade é essa, Germano?

«Não gosto da palavra bairrismo. Mas o Porto é feito de pessoas que dão a cara, que estão dispostas a lutar pelo que consideram justo». Diferenças que uns 300 quilómetros não esbatem, mesmo num País do tamanho de uma palmilha. «Gosto de Lisboa, tenho lá amigos e os meus livros até se vendem bem na capital. Mas Lisboa sempre viveu do ouro do Brasil, da corte, é mais superficial. O Porto emprestou dinheiro aos reis para ele fazerem as guerras e batia o pé aos bispos num tempo em que isso era garantia de excomunhão». Mas isso «não brita osso», diziam os portuenses de então.

O futuro dos 80

Todos os dias Germano tem a cidade a seus pés.

Literalmente.

Não falamos sequer dos passeios regulares, em que ele, guia de grupos, excursões e amigos, mostra a cidade como quem revela as linhas da palma da mão.

Faz quilómetros, qual andarilho nos seus afazeres e prazeres.

Os alfarrabistas da cidade ligam-lhe, falam de uma novidade que guardaram para ele, antes mesmo de a colocarem nas estantes. Ele passa por lá, frequenta pequenas tertúlias de sábado na livraria de Nuno Canavez, ouve dali, consulta acolá, investiga acoli. O seu espólio será dos maiores da cidade e uma pequena parte dele já repousa no Arquivo Municipal. «Uma das coisas que guardo é a coleção toda da Crónica Constitucional, publicada durante o Cerco do Porto», orgulha-se.

Das suas tribunas na Visão e no JN devolve semanalmente à cidade as memórias que ela perdeu pelo caminho.

Os seus 80 anos, celebrados esta quinta-feira, 13, têm, contudo, menos passado e mais futuro.

Quando, esta manhã, o Germano acordar e pegar nesta revista que ajudou a fundar, verá pela primeira vez a capa do seu novo livro, prestes a chegar aos escaparates, e saberá que o esperam algumas homenagens e surpresas nas próximas horas.

Sorrirá. E repetirá, talvez, o que disse ao telefone por estes dias quando soube que havia duas páginas assim à espera dele: «Ó camarada, eu já deixei de fazer anos há muito tempo…».

Por Miguel Carvalho publicado in http://adevidacomedia.wordpress.com/

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