1996
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Filipe Santos: o decacampeão

Filipe Santos: o decacampeão

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FORAM 24 anos num clube, o FC Porto. Filipe Santos ajudou os dragões a conquistarem o título nacional 10 vezes seguidas e foi capitão de equipa durante nove anos. No clube, só Reinaldo Ventura e Edo Bosch partilham consigo o decacampeonato. O feito deixa-o orgulhoso, mas, como nos diz ao telefone, “ser campeão do mundo é o máximo que se pode atingir!”. Da última vez que Portugal venceu um Mundial (2003), ele estava lá. E da última vez que venceu um Europeu (1998), também. Agora retirou-se de vez dos ringues, mas ainda não abandonou a modalidade.

Como é que começou isto do hóquei? Foi por influência do seu pai, não foi?

Foi por intermédio dele. Ele era guarda–redes e chegou a ser internacional no torneio de Montreaux, na época do António Livramento. Ele jogava no Carvalhos, que é um clube aqui de Gaia, e levou-me para lá. Eu era tipo a mascote!

Foi para o Carvalhos aos quatro anos, certo?

Fui, mas como o meu pai jogava, já conhecia antes… Conheci a modalidade ainda antes de nascer! Mas pronto, foi ele que me levou e fez com que despertasse a minha paixão pelo hóquei em patins.

Também deve ter crescido a ouvir falar do António Livramento e de muitas histórias…

Claro, claro. O hóquei nessa altura tinha uma certa importância na sociedade portuguesa. Isso era enraizado e fazia parte do dia-a-dia de muitos portugueses.

Depois foi para o Porto, aos 14 anos, e lá ficou durante 24 – esta foi a sua última época. Fez parte dos 10 títulos consecutivos do FC Porto. Sente-se mal pelo facto de o Porto não ter conseguido o título na sua última época, depois de 10 seguidos?

Nós estávamos habituados… E quando se está habituado a ganhar durante uma década, é difícil perder. Mas sabíamos que o dia da derrota estava cada vez mais próximo, porque é impossível ganhar 20 anos seguidos. Agora, queria e gostava – é lógico – de poder terminar a minha carreira com o título nacional, continuando ainda campeão. Mas pronto, as coisas não correram dessa forma. Tive uma carreira brilhante, mas teve um fim, como tudo.

De todos os títulos, só lhe falta a Liga Europeia.

Isso é uma pedra no sapato! Estive em seis finais e perdemo-las todas. E muitas por pequenos pormenores, por penáltis, no prolongamento… Foi sempre por um bocadinho, mas não foi possível [risos.]

Gostava de ter tido a experiência de jogar no estrangeiro?

Houve uma fase inicial em que sim, no início da minha carreira de sénior. Tive uma inclinação pelo Corunha [clube espanhol Liceo la Coruña], na altura era um clube de topo, com jogadores do melhor que havia. Mas o único clube acima do Porto onde eu poderia jogar era o Barcelona.

É o único que tem mais títulos [83, seguidos dos 59 do Porto].

Claro, todos os outros clubes… Só se fosse para lá com outro objectivo. Em termos desportivos seria difícil eu sair do Porto: já ganhava muitos campeonatos, tinha mediatismo tanto na cidade, como no clube e em Portugal. Por isso não havia nada que me motivasse a querer mudar de ares. Mas passou-me pela cabeça experimentar o campeonato espanhol e até o italiano, porque são sempre experiências novas. Mas não fico desiludido por não o ter feito, porque a minha vontade sempre foi estar ali no Porto.

Foi capitão da equipa durante quantos anos?

Oito anos, oito. Aliás, nove, com este último. Foi muito fácil, tirando este último ano. Habituei-me a levantar muitas taças. Desde que fui capitão, fui sempre campeão nacional, à excepção do ano passado. Mas tornou-se fácil, porque o grupo era muito interessante, cada um sabia o seu lugar. E quando é assim, o papel do capitão é muito facilitado.

Disse uma vez que houve três campeonatos especialmente duros. Os mais difíceis são também aqueles que sabem melhor no fim, não?

Todos sabem, ainda para mais quando é um atrás do outro! É lógico que o festejo, a cada ano que passava, era reduzido em cinco ou dez minutos, já tinha algo de rotina [risos.] Mas a imagem que nos passava pela cabeça de não ganhar… era muito difícil suportar isso. Apesar de ganharmos muito, pensar que um dia podíamos perder era muito difícil. As pessoas pensavam:”Ah, isto ganhar 10 anos é fácil.” Não é, porque a cada ano que passava tínhamos mais pessoas contra nós! Havia interesses, até a nível de estrutura de hóquei, em que o Porto não ganhasse tantos anos seguidos, porque não era interessante para o hóquei português.

Queriam um campeonato mais competitivo?

Pois, mas no entanto o Barcelona ganhou 13 anos seguidos e não houve problema!

O Filipe conseguiu os 10 títulos no FC Porto sempre acompanhado de dois colegas, o Reinaldo Ventura e o Edo Bosch. E depois no europeu de 1998 acabou por marcar o penálti decisivo precisamente ao seu colega de equipa [Bosch]!

Pois é, foi engraçado! Foi mais engraçado para mim do que para ele, claro [risos.] Mas isso foi no ano em que o Edo tinha acabado de vir para o Porto, ele chegou em Setembro e o Europeu foi em Dezembro, penso eu. Portanto ainda não tínhamos grande ligação, estávamos a criar ainda a nossa confiança. Mas passaram estes anos todos e nunca mais nos vamos esquecer desse momento, claro!

E já tinha feito o mesmo no Mundial de 1993, marcou mais uma vez o penálti que deu a vitória a Portugal.

E também foi o único penálti!

Foi o decisor da selecção por duas vezes.

Foram momentos decisivos, mas o papel das outras pessoas também foi importantíssimo para se chegar ali. Claro que é um momento que marca, tem muito mais impacto porque só houve um golo, um a marcar e esse fui eu. É mais por isso que tem esse significado.

Suponho que das duas vezes tenha sido o herói do dia…

Claro! Quando foi o campeonato do mundo, até fui o herói do planeta [risos.] Era o maior título possível… Isso deu-me um maior mediatismo, principalmente em 1993, porque as pessoas acompanharam muito esse campeonato e Portugal já não ganhava fora de portas há vinte e poucos anos. Foi visto por muita gente na televisão e foi um momento que as pessoas gravaram e hoje em dia ainda se lembram. Muitas só se lembram do golo, mas há aí muitas: “Eeeh, foste tu que marcaste o golo do campeonato do mundo!” ou “o golo do campeonato da Europa!” Portanto as pessoas ainda se lembram desse momento e fico feliz por ser reconhecido dessa forma.

Fez parte dos últimos títulos que a selecção conquistou, tanto a nível mundial como europeu. Essa geração, que deu tantos títulos ao hóquei português a nível internacional, começa a retirar-se e o hóquei português não tem voltado a conseguir títulos. Como é que vê isto?

Não se tem conseguido fazer a renovação ideal. Entraram várias pessoas com outro tipo de ideias, algumas completamente revolucionárias, que trouxeram resultados drásticos. O importante agora é criar um grupo de atletas fixo. Também é importante que existam mecanismos na formação, para as camadas juniores e juvenis. Muitos deles estão a ser subaproveitados, porque poderiam estar a jogar em escalões mais acima, como fazem em Espanha.

Está já um pouco envolvido nisso. Faz os campos de férias para captar jovens para o hóquei e agora está com as equipas juvenis na estrutura do FC Porto.

Sim, estou num projecto da Dragon Force, na coordenação das equipas jovens de hóquei em patins, na iniciação aos juvenis. Aí vou tentar ajudar a desenvolver mais e melhor os futuros campeões.

Qual é que acha que é o maior problema do hóquei português?

É preciso pensar na promoção da modalidade noutro sentido. Coincidir no mesmo momento várias decisões desportivas, para que no mesmo pavilhão estejam mais pessoas. É importante que o hóquei passe com muita frequência na televisão, coisa que deixou de acontecer. É preciso uma promoção que conquiste patrocinadores, porque o hóquei é uma modalidade muito cara.

Relativamente a este Europeu, vai estar presente?

Sim, vou tentar lá ir pelo menos a um jogo. Espero que ganhem, espero que ganhem, era muito importante… Não é fácil! Mas gostava que ganhassem, para se motivarem ainda mais a praticar esta modalidade, que é a minha modalidade de eleição e de paixão.

Por Cátia Bruno in http://www.ionline.pt/

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