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Dois cafés sem adoçante!… com Silvina Moura

Dois cafés sem adoçante!… com Silvina Moura

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NO LIMIAR de um novo ano e de uma nova década, O DIÁRIO DE FELGUEIRAS (DF), que já caminha para o sexto ano de existência ininterrupta, estreia, hoje, uma nova secção editorial, intitulada “Dois cafés sem adoçante!” À medida que nos for possível manter uma determinada regularidade, vamos publicar, em cada edição, uma entrevista com uma figura de reconhecido mérito, tanto a nível das suas qualidades humanas, como a nível de bem-fazer pela comunidade.
Na estreia deste rol de conversas à mesa do café, a pessoa convidada é Silvina Moura, figura que goza de extrema simpatia de todos nós – felgueirenses e não só –, tanto pelo seu empenho na profissão (professora) que abraçou durante 40 anos e da qual se despediu em Maio passado, com uma festa, na qual, no discurso, garantiu aos seus ex-alunos, colegas e amigos que se despedia da profissão mas não da vida.
De facto, cá a temos!… Na vida e na sociedade, com a jovialidade, cordialidade e inteligência de sempre. Para além de continuar a presidir à delegação local da Cruz Vermelha, recentemente foi convidada para dirigir em Felgueiras uma campanha de angariação de fundos a favor da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Por outro lado, em Outubro passado, na sua terra natal (Guimarães), participou como figurante nas gravações de um filme, do realizador francês Jean Sagols, sobre as Aparições de Nossa Senhora de Lourdes (França). O filme, intitulado “Moi, Bernadette, j’ai vu!”, ainda está a ser gravado em outras cidades portuguesas, nomeadamente onde seja possível fazer a reconstituição histórica dos meados do século XIX. Silvina Moura surge, primeiramente, como freira; depois, como burguesa.

DIÁRIO DE FELGUEIRAS (DF) – Como se sentiu na figuração que lhe foi atribuída?

SILVINA MOURA (SM) – Foi a primeira experiência do género e dificilmente se repetirá. Encontrei e convivi com gente de profissões totalmente diferentes da minha mas que comungavam o mesmo gosto pela representação. Como disse, adorei a experiência e repetiria se tivesse oportunidade. Deu para concluir que fazer juízos de valor sobre o que não conhecemos é ignorar todo o trabalho que está para lá do que se vê. Regressando à figuração que me foi atribuída. Posso dizer que aceitei sem problemas fazer o papel de “freira” (o que aconteceu no primeiro e último dia de gravações/filmagens). No final do primeiro dia solicitaram-me que fizesse ainda o papel de burguesa, que representei durante os restantes dias. Indo ao encontro da substância da sua pergunta, devo salientar que me senti muito bem: ser professor exige que sejamos capazes de fazer um pouco de tudo, mesmo ser capaz de representar, dado que ao entrar a porta da sala de aula tudo o resto fica esquecido.

DF – Pode-nos falar um pouco sobre o filme?

SM – O filme, em língua francesa, do realizador francês Jean Sagols, retrata a vida de Bernadette Soubirous, a vidente das aparições de Nossa Senhora em Lourdes, França, no ano de 1858. É um retrato da vida desta jovem vidente e santa. São abordados os acontecimentos anteriores, durante e posteriores às aparições; tudo está retratado no filme. Recorde-se que, segundo se crê, a Virgem Maria apareceu dezoito vezes a Bernadette, transmitindo-lhe mensagens de paz para o mundo. A Bernadette, depois, segue a vida religiosa, entra num convento e o filme retrata tudo isto até à sua morte. É um grande filme, não só pela sua extensão (uma longa metragem) mas pela sua qualidade temática e reconstituição histórica da época. Envolve a participação de artistas conhecidos estrangeiros e nacionais e as filmagens decorrem em muitos pontos históricos de vários países, inclusive Portugal. A par dos actores conhecidos, há a participação de um vasto número de actores secundários, que, não sendo profissionais, são imprescindíveis à acção do filme, que será estreado este ano, em 2011, e traduzido para seis idiomas. A minha participação coincidiu com as filmagens no centro histórico de Guimarães e o trabalho de realização também noutras cidades de Portugal. Entre os actores portugueses, participaram, por exemplo, Lídia Franco, Luís Esparteiro, Paula Neves, Maria João Bastos, Teresa Madruga, Sofia Grilo e Luísa Barbosa. Como vê, são figuras da TV que quase diariamente nos “entram”pela casa dentro.

DF – O tempo parece não ter passado por si; a senhora é que está a passar pelo tempo. Como se sente depois da sua jubilação?

SM – Não dei ainda pela diferença: só não tenho alunos… Sempre activa. Tenho necessidade de movimento; reparto o meu tempo pelo melhor do mundo: pela família, pela Instituição (Cruz Vermelha de Felgueiras) à qual presido, cuido dos meus afazeres particulares e dedico mais algum tempo à minha pessoa, como, por exemplo, ler, ouvir música, caminhadas, etc.., actividades que nem sempre tinha tempo para as fazer. Tento aproveitar o que a vida me vai oferecendo desde que não colida com os meus princípios.

DF – Ingressou na docência ainda antes do 25 de Abril e só há meses é que se aposentou. Tem alunos que fazem parte do seu rol de amigos mais chegados?

SM – Será mais fácil e provável serem eles a reconhecerem-me, mas, garanto-lhe, há casos em que sou eu a perguntar “ – Desculpe, não foi meu/minha aluno(a)?” Permita-me que responda às outras questões referindo um certo episódio: houve um dia (o primeiro de tantos outros) que vi chegar uma das minhas alunas à escola, a primeira que teria como colega professora. Na sua simplicidade, quebrando simpaticamente as distâncias que a diferença de idades e de situação poderiam provocar, iniciou a nossa conversa dirigindo-se-me dizendo “- Tu, Silvina…” Foi a forma mais bonita de iniciarmos uma amizade baseada no respeito e no reconhecimento de uma pela outra e que perdurará apesar de nos vermos raramente …. A presença de tantos outros na minha “Festa de Despedida” de profissão” é, para mim, comprovativo de que a relação professor/aluno deixa de o ser para passar a ser aquele sentimento lindo, ao qual se chama amizade. Há dias, acabei por aceder à grande família que é o Facebook. Foi um gesto que me valeu o reencontrar muitas carinhas perdidas no tempo mas não varridas da memória. Os meus alunos fazem parte de mim, porque me acompanharam na construção da minha pessoa.

DF – Para além das suas qualidades humanas, que nós próprios testemunhamos, a jovialidade fez (e faz!) parte da si. Embora a jovialidade e a inteligência não sejam propriamente virtudes pessoais (divinas, talvez!), qual é o segredo?… Certamente, teve problemas, como toda gente tem; trabalhou e batalhou, como os comuns dos mortais. Onde está, de facto, o segredo dessa beleza intrínseca?

SM – A beleza está nos olhos e é virtude de quem vê…Fui habituada a lutar para vencer as dificuldades. Ninguém o faz por mim nem da forma que considero que preciso: a minha arma secreta talvez seja o “apesar de tudo, sou feliz e por isso sorrio”… Devo ter entrado na Terra a sorrir, ignorando a série de problemas que teria de vencer. Problemas? Muitos! Vencem-se uns; e outros chegam… Mas sou das pessoas que vão à luta: quando me sinto esmorecer, arranjo forças para me levantar. Sabe, há outra coisa que me faz bem e que eu privilegio: gostar de mim e avaliar os outros por aquilo que sou.

DF – E, exercendo voluntariado na Cruz Vermelha (como presidente), que mensagem gosta de passar aos mais desfavorecidos?

SM – Faço por receber o melhor que posso as pessoas que me procuram e gosto de responder às suas necessidades. Será a razão pela qual disponibilizei algum tempo da minha vida exercendo voluntariado. Que tipo de pessoas me procuram? Quem precisa da Instituição. Repare, dediquei a maior parte da vida minha à Educação, fiz a minha carreira entre a Escola Preparatória, a Secundária e a EB2, 3 – Lagares. Como vê, muitos alunos, muita partilha, coisas que não esquecem… Quando nos habituamos a partilhar não conseguimos parar. Segredo? Nenhum. É uma forma de estar na vida ou seja de passar na vida. Por que razão faço voluntariado? Simplesmente, porque sim.

DF – É uma pessoa reservada mas, ao mesmo tempo, comunicativa…

SM – Reconheço que sou tímida, mas isso não me impede de conseguir comunicar e interagir com os outros. No exercício/desempenho da minha profissão, habituei-me a colocar-me ao nível daqueles com quem convivo. E é o que faço sempre, independentemente do meio e do estrato social de cada um.

DF – Considera que há pessoas que só são solidárias com os problemas fora de portas?

SM – As tragédias mediáticas são as que entram pelo televisor, que é companhia do dia-a-dia. As outras, não encontram tanta visibilidade, podendo passar ao lado …Mas não é por isso que somos menos solidários: veja só o exemplo na recolha para o Banco Alimentar. E o que temos visto estes últimos dias na televisão: tantos anónimos, que, nos seus gestos de partilha, só têm como recompensa um sorriso ou uma lágrima.

DF – Quais os serviços disponíveis, actualmente, na Cruz Vermelha de Felgueiras?

SM – Vou referir simplesmente os principais serviços: Apoio domiciliário, com acordos com a Segurança Social (este serviço vai ser alvo de algumas alterações a partir deste mês de Janeiro com o objectivo de qualificar os serviços prestados); formação em Primeiros Socorros; consultas de Nutrição; Psicologia; Fisioterapia; Enfermagem e Fisioterapia ao domicílio; Centro de Recurso a Ajudas Técnicas; ao nível do Serviço de distribuição de vestuário e de calçado, estamos a tentar aperfeiçoar a forma de o fazer, dado que a falta de instalações não nos permitem fazê-lo de uma eficaz.

DF – Como funcionou a Loja Social da Cruz Vermelha?

SM – As instalações foram cedidas gratuitamente pela proprietária. Os bens que chegavam, quer à sede, quer ao espaço acima referenciado, foram distribuídos por duas voluntárias das seguintes formas: gratuitamente ou em troca de donativo simbólico.

DF – Em que foram aplicados esses donativos?

SM -Foram utilizados na resolução pontual de situações difíceis (que devem chegar à Assistente Social), para suportar, por exemplo, o almoço de Natal da Cruz Vermelha; para formação gratuita em Primeiros Socorros a docentes e a técnicos de Acção Educativa das Escolas deste concelho.

DF – Como Presidente da Cruz Vermelha, gostaria que a Delegação tivesse mais associados e mais voluntários?

SM – Tudo e todos os que chegam à Instituição são bem aceites desde que para ajudar … Relativamente a bens, há muito por onde escolher especialmente a nível de roupa e calçado. É verdade que os sócios são os amigos da Instituição e são-no porque reconhecem os serviços que prestamos. Quantos mais, melhor podemos responder às necessidades que se avizinham e melhores serviços dos acima citados podemos prestar à comunidade felgueirense. Quanto a voluntários, são sempre bem-vindos; nunca são os que precisamos. Para ser voluntário basta estar disponível algum tempo.

DF – Como tem sido o relacionamento da Cruz Vermelha com as Instituições oficiais? Recebem, por outro lado, apoio de entidades privadas?

SM – A Cruz Vermelha é uma Instituição que tem dado provas. Já serve o concelho há trinta anos. Considero que se relaciona bem na comunidade em que está inserida. A comprová-lo estão as diversas parcerias, tais como com a Câmara Municipal, com a Segurança Social, Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, Rede Social do Concelho, Centro de Saúde e outras IPSS’s …. Recebemos muitos donativos (calçado, vestuário, brinquedos e livros) de pessoas anónimas. Os sócios também nos fazem falta, dado que as suas quotizações são empregues nas despesas mensais de manutenção da Instituição.

DF – Acaba de ser convidada para outra causa… A recolha de fundos para a Liga Contra o Cancro.

SM – Sim, como cidadã, sou uma das coordenadoras concelhias de ”Um dia pela vida – Felgueiras”, movimento cujos objectivos principais são a prevenção e a recolha de fundos para investigação. Pensei não aceitar, dado que considero ter já o meu tempo suficientemente ocupado, mas, por experiência, sei que o cancro é uma doença silenciosa que não hesita em se aproximar de nós e que é preciso ter coragem para o vencer. Por outro lado, quem é atingido por tal fatalidade, além da luta que tem de travar contra a doença, fica, ainda hoje, sujeito ao julgamento da sociedade que procura encontrar na forma de viver do(a) atingido(a) razões para tal doença. Lutam contra a doença e contra o preconceito social. São, a meu ver, os heróis deste século. Por estas razões não pude ignorar o movimento.

DF – Qual a mensagem que gostaria de deixar aos nossos leitores, como a pessoa que é? Como professora, mãe de família e pessoa com responsabilidades na sociedade.

SM – Não é fácil deixar uma mensagem que seja comum a todos, mas parece-me que, no momento crítico que atravessamos, não será descabido dizer que tenham esperança no futuro, que valorizem a família e se empenhem na educação global das mulheres e homens de amanhã!

Diário de Felgueiras, editado por José Carlos Pereira in http://josecarlospereira.blogspot.com/

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