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Fernando Távora (1923-2005)

Fernando Távora (1923-2005)

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A OASRN tomou conhecimento do acentuado estado de degradação física da Casa do Dr. Fernando Ribeiro da Silva, vulgo “Casa de Ofir”, projecto de Fernando Távora de 1957 e obra seminal da História da Arquitectura Portuguesa da segunda metade do século XX.

Neste sentido, a Direcção da OASRN está a desenvolver contactos com entidades envolvidas na salvaguarda e difusão do património arquitectónico – entre outras, com a Direcção Regional da Cultura do Norte, DRCN, e com a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, FAUP –, no sentido de criar um grupo de trabalho que pugne pela intervenção urgente no edifício, invertendo o referido processo de degradação, e que perspective a possibilidade da sua reabilitação integral, no respeito pelo projecto original, em articulação, quer com a Câmara Municipal de Esposende, quer com os proprietários do imóvel.

No mesmo sentido, o Conselho Directivo da OASRN irá defender, junto das autoridades competentes do Ministério da Cultura, MC, a necessária e premente atribuição do estatuto de Monumento de Interesse Público à “Casa de Ofir”.

Publicado in http://www.oasrn.org/

§

Fernando Távora 1923-2005

Nasceu no Porto a 25 de Agosto de 1923. Licenciou-se em Arquitectura em 1952, na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, onde viria a ser professor. Foi presidente da comissão para a criação da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto e professor catedrático desta faculdade. Foi, igualmente, professor do departamento de arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e doutor honoris causa por esta universidade.

Integrou o famoso Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa (1955), cujo trabalho de campo permitiu demonstrar que a arquitectura portuguesa tinha uma variedade enorme, não havendo uma «casa portuguesa». Este tema já o acompanhava nas suas reflexões, pois tinha publicado o texto «O Problema da Casa Portuguesa» (1947), problema a que voltaria mais tarde, na publicação «Da Organização do Espaço» (1962 e 1982).

Participou em numerosos congressos, entre os quais os últimos Congressos Internacionais de Arquitectura Moderna, os célebres CIAM. Num deles, apresentou a Casa de Ofir, um momento de especial relevância na história da arquitectura portuguesa: nesse tempo, a arquitectura nacional acertava o passo com o que se passava no mundo e as vanguardas passaram a estar na mira do traço dos arquitectos portugueses.

Sobre esse momento, Fernando Távora disse que se tratou não de uma revolução mas de uma «evolução». Explicando: «Eu tenho uma característica que é fundamentar muito os edifícios relativamente às circunstâncias, ao momento e ao lugar». A Casa de Ofir revelaria essa característica. «Eu achei interessante levá-la ao CIAM porque estava a gozar-se já de uma certa liberdade. Depois, começou a descer, os ventos começaram a cansar-se».

Diversas exposições tiveram como tema o seu trabalho, no Smithsonian Institution de Washington, na Escola Superior de Belas Artes do Porto, na Fundação Calouste Gulbenkian, no Museu Soares dos Reis do Porto, na exposição «Europália 1991», na Trienal de Milão ou na Bienal de Veneza.

Ganhou o primeiro prémio de arquitectura da Fundação Calouste Gulbenkian, o Prémio «Europa Nostra» (pela Casa da Rua Nova, em Guimarães), o Prémio Turismo e Património de 1985 e o Prémio Nacional de Arquitectura de 1987 (pela Pousada de Santa Marinha, também em Guimarães).

Estava já previsto que Fernando Távora fosse a figura central das comemorações do Dia Mundial da Arquitectura, que se celebra no início de Outubro, por parte da Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitectos.

Fernando Távora faleceu no dia 3 de Setembro de 2005, aos 82 anos, e o seu corpo foi cremado no final da manhã do dia 5 de Setembro, no cemitério do Prado do Repouso, no Porto.

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«A razão das coisas» de Fernando Távora

«Lembro-me de ter cumprimentado o senhor Le Corbusier, foi uma das glórias da minha vida. Ele não era um velho, mas era um homem já maduro, que estava a maturar as suas ideias de infância».

Fernando Távora recordou, assim, numa entrevista 1, o encontro com Le Corbusier (aliás Charles-Edouard Jeanneret) num dos congressos internacionais de arquitectura moderna (CIAM), iniciativas que decorreram entre 1928 e 1956.

OS CIAM pretendiam pôr em discussão os problemas da arquitectura contemporânea, apresentar as ideias da arquitectura moderna e fazer com que a sua realização passasse para os centros de decisão. A escolha de países diferentes foi uma das características que deixou marcas, pois os CIAM contaminaram os locais por onde passaram e agitaram os centros profissionais respectivos.

Le Corbusier foi uma das referências de Fernando Távora. «Os meus génios artistas são Le Corbusier na arquitectura, Picasso na pintura e escultura e Fernando Pessoa, um grande poeta mundial (…) São personagens a que um leigo como eu tem o direito de se agarrar».

Sobre Fernando Távora um traço distintivo sobressai em quase todos os comentários que profissionais da arquitectura têm feito: sabiamente, conseguiu juntar a formação clássica ao Movimento Moderno da arquitectura.

Casa de Ofir

Não deixou de reconhecer que isso se passava num tempo em que as referências profissionais eram meia dúzia e que o trabalho de arquitecto vivia em estreita ligação com a pintura ou a escultura. Desde então o mundo evoluiria no sentido do crescimento das escolas, referências e estéticas, como Fernando Távora referiu: «Há uma mudança muito grande. Estou convencido que os arquitectos vão caminhar em vários sentidos».

Aquele traço, saber inovar respeitando o lugar e o seu património (num sentido lato do termo), foi destacado pela presidente da Ordem dos Arquitectos, Helena Roseta: «Ensinou-nos que era possível inovar, amar e reabilitar o património com inteligência e grande brilhantismo», disse, em declarações ao «Diário de Notícias».

Fernando Távora afirmou que esse casamento entre inovação e classicismo também fazia parte da herança familiar. O pai, formado em Direito, interessou-se sempre pelas questões da arquitectura antiga; a mãe possuía algumas casas antigas.

«Comecei [desde cedo] a procurar compreender as razões das coisas. Já com 12 anos, tinha uma casa no Minho que tinha uma torre e uma casa no sul, horizontal, que já não tinha torre. Tudo isso me prendeu à razão das coisas e eu observo muito as pessoas. [Estou atento] e, portanto, isso dá às coisas que eu tenho feito um certo carácter, uma certa identidade».

Por diversas vezes, fala da importância das «coisas pequenas», perceber e compreender os pormenores: «Eu, realmente, não posso ver uma janela sem ver o lado de lá».

Outro traço interdependente do seu trabalho e personalidade é a análise do tempo: «Eu não sou procurado como arquitecto que trabalho barato, que trabalha depressa, que trabalha muito rápido… não é o meu estilo. Habituei-me ao que em português se chama ‘ripanço’, quer dizer, trabalhar lentamente».

1 «Fernando Távora. Desenhos de Viagens, Projectos», Macrom, 2002

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Alguns projectos
(Excertos retirados do livro «Fernando Távora. Desenhos de Viagens, Projectos», Macrom, 2002) Mercado Municipal de Vila da Feira (1953-1959)
«Implantar um mercado num quadrado de 50 por 50 metros. Corpos vários, com sentido protector, distribuem-se formando um pátio. Não apenas um lugar de troca de coisas, mas de troca de ideias, um convite para que os homens se reúnam». Pavilhão de Ténis – Quinta da Conceição, Matosinhos (1956-1960)
«Devo dizer que há muitas obras que fiz e de que não gosto porque foram realizadas com pressa (o tempo é bom conselheiro) ou porque o meu momento ou as condições não eram favoráveis, mas vejo-as sempre com muita saudade como acontece com as mulheres outrora amadas. O Pavilhão de Ténis é uma das obras de que ainda gosto (…) O problema que se colocava era o de marcar o parque com um edifício, criando ali um objecto dotado de presença, que afirmasse o eixo dos campos de ténis e que servisse como ponto de referência». Casa de Férias de Ofir (1957-1958)
«Uma das mais elementares noções de química ensina-nos qual a diferença entre um composto e uma mistura e tal noção parece-nos perfeitamente aplicável, na sua essência, ao caso particular de um edifício. Na verdade, há edifícios que são compostos e edifícios que são misturas (para não falar já nos edifícios que são mixórdias) e, no caso presente desta habitação construída no pinhal de Ofir, procurámos, exactamente, que ela resultasse um verdadeiro composto». Parque Municipal –Quinta da Conceição, Matosinhos (1956-1960 /1993-2002)
«O Parque foi um convento de frades que ali se instalaram no século XV e, depois, uma propriedade particular. Existiam a avenida, a capela, o claustro, os tanques e, portanto, havia já elementos que garantiam uma estrutura a manter. A sua realização durou anos. O município pagava-me ao fim de cada ano segundo a obra feita. Eu funcionei ali como o padre prior do convento. Caminhava com os pedreiros e jardineiros, indicando-lhes o que deviam fazer (…) Tudo isto se passava numa situação muito familiar, quase doméstica». Casa Engenheiro Ferreira da Silva, Porto (1992)
«As condições do projecto são excelentes. Terreno com boa área e boa forma, bem orientado e localizado, bem servido de acessos; programa simples e claro, bem dimensionado. A casa define-se por um núcleo central situado no rés-do-chão e constituído por escritório-sala de estar, sala de comer, ao qual se acede por uma entrada com pé-direito duplo; da mesma parte (…) uma escada conduz aos quartos situados no andar, arrumados em dois núcleos». Anfiteatro da Faculdade de Direito, Universidade de Coimbra (1994-2000)
«À Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra fazia falta a existência de uma sala que exercesse as funções de Anfiteatro, muito embora a ‘velha’ sala da Universidade continue a desempenhar tais funções quando se trate do grau máximo que pretende dar-se a elas. Um concurso aberto pela Universidade conduziu-nos ao projecto do edifício (…) um lugar muito marcado, a que se acrescenta, ainda, junto do muro de suporte, o que resta de uma portada manuelina e, sem o esquecer, quando da abertura das fundações para o novo edifício, a implantação de um caminho romano e de restos da estrutura de um muro de semelhante idade».

Publicado in http://www.oasrs.org/conteudo/agenda/noticia1212005.asp

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