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Carlos Gouveia, 50 anos

Carlos Gouveia, 50 anos

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CARLOS Gouveia tem 50 anos e toda uma vida ligada à fruta. Filho de importadores deste produto, cresceu no meio dos campos e dos camiões.

O atual empresário – natural de Miragaia, Porto, a viver hoje no Alto da Maia, Águas Santas, Maia – sempre se interessou pelo negócio da família, do qual nunca se afastava, mesmo quando andava no colégio. Mais tarde, começou a trabalhar com os pais. Quando havia falta de chofer, Carlos ia para onde fosse preciso levar a fruta e carregava-a, fizesse chuva ou sol. “Não era como agora que não se carrega o camião quando está a chover”, conta Carlos, para depois concluir que eram “outros tempos”.

Com 20 anos, o pai deu-lhe um cartão de crédito para a mão e mandou-o para Espanha procurar fornecedores. Foi para Madrid, por onde andou a tirar as etiquetas das caixas da fruta, com o nome dos abastecedores. Depois, selecionava-os e ia negociar. Mais tarde, Carlos também começou a ir para a Holanda, onde fica o maior porto da Europa, responsável por grande quantidade do comércio internacional deste continente com o resto do mundo.

Passados cerca de 30 anos, o empresário recorda como chegou a andar “escondido” no país das tulipas. É que na altura, esclarece, havia um monopólio, com um pequeno conjunto de fornecedores a controlar o mercado, o que dificultava o contacto com outros. Iam busca-lo e levá-lo ao aeroporto. Para contornar a situação dizia, por exemplo, que ia na quarta-feira para a Holanda quando na realidade andava por lá desde segunda.

“O tempo vai passando e vamos descobrindo as melhores formas de lidar com as situações e as dificuldades”, relata.

Os pais do proprietário da apple.come, os primeiros a importar kiwis para Portugal, preferiam que o filho tratasse mais de assuntos do escritório, mas Carlos nasceu no meio da fruta e era lá que queria ficar. Acabou por desentender-se comercialmente com os pais e tornar-se concorrente dos mesmos.

Explica que no início nem o levaram muito a sério e pensaram que acabaria por voltar para o negócio, mas isso nunca chegou a acontecer.

Antes de construir o seu próprio império da fruta, Carlos ainda trabalhou no recheio. Nunca se apresentava com o nome completo – Carlos Melo Gouveia -, usava apenas o primeiro e o último para que não o associassem à família (a quinta dos pais chamava-se Laura Melo Gouveia) e, desta forma, conseguisse construir a sua própria imagem.

O segredo acabou por não durar muito. Estava a tomar conta de uma loja, na parte dos frescos, mas a fruta era a sua praia e, uma vez, teve um desentendimento com o chefe por causa de laranjas. Carlos dizia que era uma variedade, enquanto os restantes diziam que era outra, a que tinham pedido. Insistiu na ideia porque sabia que estava certo.

A situação não se resolveu até se realizar uma auditoria e, quando lá chegou o responsável máximo dos frescos, na época, perguntou-lhe se não era o filho da Laura. Quando Carlos confirmou, perceberam-se de onde vinham as certezas que tinha.

Com isto, trocaram-no de posto e ficou como responsável pelas compras para o recheio, mas não parou no cargo muito tempo. Decidiu não trabalhar mais com a fruta e acabou numa empresa têxtil. Esteve lá cerca de três anos, até resolver voltar às origens e, com a mulher, abriu a primeira apple.come.

Carlos conta que foi difícil registar o nome, por causa da empresa de tecnologia já associada ao mesmo, mas a persistência que o caracteriza não o deixou desistir. Queria montar uma frutaria e achava que tinha todo o direito a usar o vocábulo «maçã», em inglês, para lhe dar nome. Acrescentou o «.come» e, depois de muitas voltas, lá conseguiu convencer os senhores do registo.

Atualmente tem três lojas – à primeira, no Alto da Maia, juntou uma na mesma localidade e outra na Invicta, mais especificamente no Campo 24 de Agosto – e planos para abrir mais. Já começou a planear, mas nada está definido. “Há que ver o sítio certo, a hora certa. Não quero abrir só por abrir, mas sim para tentar alcançar o sucesso que as outras já têm”, esclarece.

Neste momento, a empresa está saudável. Tem clientes regulares e fornece também para lares e cantinas. O leque de compradores é vasto, mas a ambição de aumentá-lo nem por isso diminui.

Para promover as lojas, usa rimas, que chamam a atenção de quem por elas passa. Escritas pela mulher ou pelo próprio, originam sempre perguntas. Os clientes querem saber de onde veio a ideia.

Carlos tem apenas um filho, a tirar a licenciatura em engenharia informática, que não demonstra muito interesse na fruta. A vida dá muitas voltas, salienta o empresário, mas como está agora tem 99% de certeza que o futuro do filho não passa pelo negócio que construiu.

SOBRE A AUTORA:
Patrícia Santos, natural de uma pequena aldeia do concelho de Santo Tirso, nasceu em 1997. Atualmente, estuda Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria e Multimédia, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Realizou Erasmus em Tarragona durante um semestre. Começou a colaborar com o Correio do Porto em 2017.

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