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Carlos Daniel: ‘Não há horário nobre a norte’

Carlos Daniel: ‘Não há horário nobre a norte’

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ESTREOU-SE numa rádio pirata de Paredes, passou pela Comercial e a Antena 1. Entrou para a RTP em 1991, acumulando com a TSF. Em 2000, esteve na SIC, para regressar um ano depois à estação pública. Apresenta o Jornal da Tarde, modera o Ordem do Dia na RTP Informação e é comentador no programa Grande Área.

Ao fim de tanto tempo a apresentar jornais, porque é que ainda não chegou o seu momento no horário nobre?

Fui tendo esse lugar algumas vezes. Mas é evidente que o facto de eu viver no Porto é um constrangimento para que pensem em mim mais vezes. Acho que tem a ver com duas razões: por viver no Porto e por ter desempenhado funções na direcção de Informação e, mais tarde, na RTPN, que me prendiam à realidade do norte. E não há horário nobre a Norte.

Tem pena que assim seja?

Não é de maneira nenhuma uma obsessão. Sinto-me muitas vezes mais realizado a fazer um debate do que sentiria só a apresentar o noticiário pelo noticiário. Agora, reconheço que o Telejornal, o Jornal da Noite, o da TVI, são os jornais que marcam e que nos deixam noutro patamar, pelo menos aos olhos de algum público e de alguma imprensa.

Quando esteve na SIC, apresentava o jornal do fim-de-semana e sempre referiu esse ano como uma boa experiência.

Foi uma experiência excelente, não necessariamente pelo Jornal da Noite. Não é entre um jornal e outro – como o jornal da hora do almoço – que eu sinto diferença. O que me motiva hoje é outro tipo de exigência, como as eleições, os debates…

Que recordações tem do seu tempo na televisão privada?

Só tenho boas recordações. Fui super bem tratado. Fiquei com muitos amigos que mantenho e foi uma experiência que me fez crescer muito a nível profissional. Conhecer outra cultura de empresa é, desde logo, um ponto de partida para sermos melhores do que éramos antes.

Acha que fez bem em sair da SIC?

Costumo dizer por brincadeira que é a única decisão da minha vida que não sei se foi boa ou má. Sei que, do ponto de vista pessoal, ganhei bastante em estar no Porto, mais perto da família, para ver as minhas filhas crescer. Mas nós nunca sabemos o que o outro caminho teria dado. A vida é feita de ípsilones e quando cheguei à encruzilhada, tive de escolher.

Há diferenças entre um pivô de uma privada e um pivô de uma estação pública?

Não há nenhuma. O rigor que se tem de colocar na profissão, a criatividade, a comunicabilidade – que para mim são as três grandes características dos apresentadores – são exactamente iguais. Somos jornalistas, respeitamos o mesmo código deontológico, as mesmas regras.

No seu caso, como é que essas características se traduzem?

Tentando obedecer quase a uma sequência. Cuidado com o rigor, em primeiro lugar. O rigor é a palavra que traduz aquilo que entendemos por verdade, honestidade, o estar de forma séria na profissão. A segunda questão é a comunicabilidade: não acredito que se possa ser um apresentador se as pessoas não acreditarem que estamos ali a dizer-lhes alguma coisa. Por último, a criatividade, o toque que se dá num texto, a forma como se coloca uma pergunta.

É considerado o rei do improviso na RTP. Como é que se consegue improvisar sem pôr em risco o rigor?

Tem muito a ver com o conhecimento dos temas e há dois temas que me são mais caros: a política e o futebol. São duas coisas de que eu gosto. Não é para mim um dia normal, quer tenha trabalho ou não tenha, não saber o que aconteceu no mundo político ou no mundo desportivo. É evidente que nesses temas o improviso se torna mais fácil. E não me parece que o rigor colida com o improviso. Não podemos é improvisar nas ideias, podemos antes improvisar nas palavras. Essa é que é a grande questão: domínio da língua e dos temas.

Uma vez que domina tanto o futebol, como é ser moderador de debates futebolísticos sem se intrometer?

É ter noção da função que temos em cada momento. Mas eu nunca deixei de ser um moderador actuante nos debates. Quer no Trio d’Ataque, quer nos grandes programas que fiz à volta dos Europeus e dos Mundiais, desde 2002, sempre fui um apresentador interventivo. Mas tinha a noção de que o meu limite era fazer perguntas e, quanto muito, reagir a respostas. Hoje é diferente.

Como é estar do outro lado, enquanto comentador, no programa Grande Área?

Aí é que é mais difícil pensar em não conduzir um debate. Muitas vezes, tenho de me obrigar a calar-me para não entrar no trabalho do meu colega. A tendência é pensar: ‘Agora a seguir ficava bem ir para ali. Mas não és tu que tens de levar isso para ali. Tens de estar calado e ficar atento à pergunta seguinte’.

Como viu a passagem da RTPN para a RTP Informação?

Como uma tentativa de fazer com que o canal se afirme mais, tendo a noção de que não é fácil, do ponto de vista audiométrico, pelo menos, conseguir um crescimento rápido. Foi uma decisão perfeitamente legítima.

Mas mudou para melhor?

Melhorou o empenho da actual direcção de Informação em relação ao canal, em comparação com a anterior direcção. Depois, há outras coisas que mudaram para melhor. Mas acredito que as pessoas gostariam que tivesse mudado mais.

Porquê?

Porque há rotinas nos canais por cabo que não são fáceis de alterar. Quando se aposta na informação no cabo não podemos esquecer que o público é curto. Há muita gente que quer ver notícias, mas as pessoas que vêem a SIC Notícias, a RTP Informação e a TVI24 são as mesmas. É preciso lutar por este público.

Mas é possível o canal colar-se à SIC Notícias, em termos de audiência?

Acredito que é possível. Às vezes, as ondas mediáticas da imprensa especializada são mais ou menos favoráveis e, neste momento, estão mais favoráveis à RTP Informação do que foram em relação à RTPN. Por razões talvez regionais, talvez… Bem, a verdade é que a imprensa também nos puxa para cima. Porque duas ou três notícias criam um élan à volta de um canal e de uma marca.

Diz que gosta de cantar, que faz karaoke. Isso revela que é uma pessoa bem-disposta, mas consta que tem mau feitio…

Isso é um mito urbano. Tinha há alguns anos. A idade, a esse nível, abranda-nos. Tenho algumas reacções a quente. Sou emotivo, isso sim. Mas não sou nada uma pessoa zangada com a vida. Pelo contrário. Tenho momentos de alguma explosão, de mau génio, mas menos do que já tive. Zango-me menos com a vida. Há uma fase em que achamos que temos de mudar o mundo e, depois, achamos que temos de mudar perante o mundo. E eu acho que já estou mais nessa fase. Sou normalmente uma pessoa animada, feliz e é comum andar a cantarolar pelos corredores da RTP…

Há algum tema que ande a cantarolar agora?

A semana passada andei para aí a cantar faduncho. Como toda a gente andava a falar do fado…

Tem jeito para o fado?

Nunca cantei um fado no sentido tradicional, acompanhado à guitarra e à viola. E é uma experiência que gostava de ter um dia.

Por Maria Francisca Seabra publicado in http://sol.sapo.pt/

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