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As tiradas de João Pinto

As tiradas de João Pinto

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AÍ ESTÁ o mítico lateral e capitão portista, aquele que domingo à noite, depois do FC Porto-Sporting, vai acertar no resultado

“O meu coração só tem uma cor, azul e branco.” “Chutei com o pé que estava mais à mão.” “Estamos felizes porque estamos contentes.” “Baía é o melhor do mundo e talvez da Europa.” “Prognósticos só no fim do jogo.” Independentemente das tiradas, João Pinto, mítico lateral direito do FC Porto, ficaria sempre na história. Ganhou nove campeonatos, ergueu a primeira Taça dos Campeões para o FC Porto e só a largou por momentos, para Madjer e Pinto da Costa, o presidente que o definiu como atleta exemplo do clube. Com os dragões de novo no topo e em fim-de-semana de FC Porto-Sporting, lá telefonámos a um dos mais discretos e grandiosos futebolistas que este país produziu.

Bom dia, João Pinto. O FC Porto é campeão, está numa meia-final europeia… Isto para si não é novidade nenhuma.

Prontos… não é bem normal, mas é verdade que o clube já habituou os sócios e adeptos a estas vitórias. Esta equipa pode chegar muito longe, está a fazer uma temporada espectacular!

Como é que você, nove vezes campeão nacional, campeão europeu, olha para isto?

É um pouco como quando eu lá estava. Quem trabalhava no FC Porto passava uma palavra aos que apareciam e ganhar tornava-se uma exigência bastante normal. Por isso é que os títulos aparecem com naturalidade.

Você era um dos principais protagonistas desse espírito.

Pinto da Costa é que disse que o João Pinto era o atleta modelo do FC Porto.

Ah, não sei se ele disse isso…

Olhe que sim! Eu tinha a minha maneira de estar e de defender o clube, mas como eu existiram muitos, antes de mim o [Fernando] Gomes, depois o Jorge Costa ou o Vítor Baía…

E não acha estranho que hoje a equipa jogue com dois ou três portugueses no onze inicial e a braçadeira de capitão seja de um estrangeiro, Helton?

Se me perguntasse se gostava de ver mais portugueses no FC Porto, é claro que respondia que sim, mas depois do impacto da Lei Bosman os clubes tiveram de se adaptar à nova realidade. Olhe que os clubes portugueses adaptaram-se bem e o FC Porto é talvez o melhor exemplo, contratando bem, vendendo melhor e fazendo aproveitamento da formação.

Você chegou ao FC Porto com 14 anos.

Sim, mas a minha mãe era contra o futebol, porque o meu pai tinha abandonado a carreira devido a uma lesão. Quando precisava de assinar papéis do clube, ia sempre ter com o meu pai. Às vezes ainda dou por mim a rir das porradas que a minha mãe me dava.

Como foi o início no clube?

Lembro-me de me irem buscar a Oliveira do Douro, para um treino de iniciados no campo da Constituição, um pelado onde estavam mais uns trinta e tal miúdos. Foi assim, saiu muita gente boa da Constituição…

Nessa altura você não era lateral. É verdade que foi Pedroto que o fez lateral, já nos seniores?

Olhe, eu fui extremo, avançado e fui muitas vezes médio-centro. Depois fui lateral esquerdo, mas num jogo da selecção, em Cannes, o Jesualdo Ferreira colocou-me como lateral direito. Foi a primeira vez. Passou mais algum tempo, subi aos seniores, ainda joguei a médio mas, sim, foi com o Pedroto que me tornei lateral direito, em 1982/83.

Este FC Porto ainda tem alguma coisa de José Maria Pedroto?

São realidades diferentes, se calhar até fica difícil comparar o treinador de hoje [Villas-Boas] com o de então. Estamos a falar de pessoas e jogadores distintos, a única coisa que sei é que o comum são o sr. Reinaldo [Teles] e o sr. presidente [Pinto da Costa]. Mas sim, foi nessa altura que se começou a ganhar como agora, quando acabámos com aquela ideia de que estávamos a perder assim que atravessava a ponte em direcção a Sul. O espírito passou a ser outro.

Era o espírito que o fazia jogar com um pé partido?

Eu nunca fui tecnicamente evoluído, não podia dar baldas aos que concorriam comigo por um lugar na equipa e tinha de ter espírito de sacrifício. Mas eu não era o único. Na altura dizia-se no balneário que era preciso morrer em campo. Esta frase durou muitos anos no clube.

Conte lá a história do pé partido.

Tinha o dedo pequeno do pé direito partido, os médicos diziam que tinha de estar um mês sem jogar, então fiz um buraco na bota – porque tinha mais dores quando aquele lado da bota me apertava – e pintei a meia de preto para disfarçar.

Você, que não era tecnicamente evoluído, é convidado para o jogo de despedida do Zico.

Fui capitão da selecção do resto do mundo e ainda participei em mais quatro jogos desses. Há coisas que não se esquecem, ali apareci eu, meio envergonhado, mas tive sorte de encontrar malta porreira. É como dizem: a linguagem do futebol é igual em todo o lado.

Na final da Taça dos Campeões, em 1987, é que não deu bola a ninguém: só o Madjer conseguiu agarrar na taça por uns segundos, porque você não a largava.

Não foi só ele, o presidente [Pinto da Costa] também a agarrou um bocadinho, depois tirou a fotografia e fugi novamente com a Taça às voltas pelo campo. Ainda bem que fiz isso, porque hoje quando passam as imagens estou lá sempre [risos].

Na final da Taça Intercontinental, contra o Peñarol, teve outro grande momento…

Pois foi, rebentei a bola! Havia tanta neve, aquilo estava tão complicado, que mandei um bico para a frente e a bola rebentou. Mas olhe, aí já não me agarrei à Taça. Agarrei-me à outra porque foi a primeira grande conquista, o início de tudo… Sabe que o início de tudo isso podia ter acontecido antes, em 1984, quando perdemos a final da Taça das Taças contra a Juventus.

Do Platini e do Rossi.

Pois, mas para esse jogo já lá chegámos em festa. Estar na final já era uma festa. Se essa final fosse oito dias depois, digo-lhe, tínhamos ganho! As outras finais já as encarámos de outra forma.

Diga lá a verdade, sofreu falta naquele lance do Boniek em que a Juventus fez o segundo golo?

Claro, o Boniek fez falta, mandou-me um empurrão! Mas pronto, foi uma grande final, jogámos muito, nem merecíamos o resultado [2-1, Vignola e Boniek, contra um golo de Sousa].

E como é que você marcou oito golos no campeonato de 1991/92?

Oito, quais oito? Foram 12! Nesse ano fui o segundo melhor marcador da equipa, atrás do Kostadinov. Se calhar foi a minha melhor temporada de sempre.

Oito golos no campeonato, 12 em todas as competições.

Ah, sim!

Nesse ano até marca de penálti no Estádio da Luz e roubam o campeonato ao Benfica.

Guarda-redes [Neno] para um lado, bola devagarinho para o outro… [descreve com orgulho] Jogava o Rui Filipe, ainda me lembro de ele vir a correr atrás de mim para festejar. Nessa altura íamos à Luz com 120 mil pessoas sem o mínimo problema… Agora as coisas estão um bocado diferentes.

O Rui Filipe sofreu o penálti nesse jogo. Já agora, seria ele o seu sucessor como capitão do FC Porto?

Acho que sim, era um rapaz exemplar, não dizia não a nada.

Que dicas é que você deu ao Jorge Costa para ser capitão?

Estas coisas não se falam muito, um capitão nem tem de falar, tem é de se impor pela forma como está no campo. Nessa altura o FC Porto tinha muita gente que conhecia o clube, gente que vinha dos escalões de formação e podia assumir esse papel.

O que lhe faltou? Ficou com pena de não ser opção no Mundial do México, em 1986?

Tinha sido operado uns meses antes, ao pulmão, e perdi o ritmo. Mas eu tinha dito que ia ao Mundial e fui! Quando estava no hospital, depois da operação, os médicos falaram-me em 15 dias para sair de lá. “Ai é! Então vou ao Mundial!” Ninguém acreditava. Fiz alguns jogos em dificuldade, sem saber o que tinha no pulmão, até que um dia, contra o Estoril, amarraram-me todo com ligaduras, mas não aguentei mais.

E agora? Depois de treinar o Sporting da Covilhã, o homem que tem o “coração de uma só cor, azul e branco”, não devia estar a fazer qualquer coisa no FC Porto?

Não vale a pena falar muito disso, primeiro só quero que a minha vida volte ao normal. Ainda tenho de resolver primeiro a saída da Covilhã, se calhar é coisa para ir parar aos tribunais.

Qual foi a sua melhor tirada?

“Prognósticos só no fim do jogo”, claro!

Então não me vai dizer como acaba o FC Porto-Sporting de domingo.

Claro, prognósticos só no fim do jogo!

Publicado in http://www.ionline.pt

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