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António Rebordão Navarro: “A Praça de Liège”.

António Rebordão Navarro: “A Praça de Liège”.

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ONTEM tive a sorte de almoçar com o escritor António Rebordão Navarro. Eu e mais três amigos. Falámos sobretudo de banalidades risíveis, como convém à mesa, mas era fatal chegarmos aos livros. Perguntei:

– O senhor doutor (Rebordão Navarro é formado em Direito e chegou a exercer como advogado e delegado do Ministério Público, antes de se entregar de corpo e alma à escrita) ainda mora lá para a Foz?
Mora. Mas já não na Praça de Liège e era aí que eu queria chegar. Com a minha notável capacidade para fazer figura de parvo, eu estava mortinho por demonstrar mais uma vez quão sólido é o cuspo com que argamasso os meus pindéricos alicerces culturais. E disse, todo vaidoso:
– Sabe, eu tenho o livro, tenho “A Praça de Liège”. Se soubesse que me ia encontrar com o senhor doutor, até o tinha trazido para levar uns sarrabiscos. Tenho o livro, está lá em casa…
– Ai tem o livro? Mas eu escrevi mais livros, escrevi para aí uns catorze… – cortou-me a vaza Rebordão Navarro, sem disfarçar o sorriso malandro como o arrozinho de feijão e legumes.
A minha primeira reacção foi largar o habitual “Eu sei!” com que tento sair das enrascadas em que me meto, e recitar ali mesmo, de cor e salteado, da trás para a frente e da frente para trás, por ordem alfabética e depois por ordem cronológica, os outros treze títulos do autor que tinha à minha frente de faca em punho, mas a verdade é que… eu só conhecia “A Praça de Liège”. Optei, portanto, por tornar pública a minha segunda reacção, que também me saiu uma boa merda e que foi “Pois faço ideia, mas lamentavelmente não tenho acompanhado a carreira do senhor doutor”…

“A Praça de Liège” foi um sucesso tremendo aquando da sua publicação, em 1988. Era o livro da moda (pois se até eu o comprei!) e ganhou o Prémio Literário Círculo de Leitores. Hoje, no Círculo de Leitores não sabem quem é António Rebordão Navarro. Alguém do Círculo contactou a irmã do escritor, a senhora falou do irmão e do prémio e obteve como resposta um lamentável
– Quem? Rebordão quê? Não conheço…
Pois é: a memória! As empresas enxotam quem sabe da poda, despedem os funcionários pelas mãos dos quais passaram os factos e as pessoas, preferem juniores renováveis, fiam-se no Google mas não vão lá. E depois ninguém sabe nada de nada.
Ouvi dizer que está a acontecer o mesmo nas redacções dos jornais e até me contaram algumas anedotas. São de rir tanto que às tantas até são verdade.

No que me toca, e como penitência pela minha ignorância quanto à globalidade da obra literária de António Rebordão Navarro, que afinal é qualquer coisinha mais do que catorze títulos, aqui deixo o registo essencial, com sinceros votos de que faça também bom proveito à rapaziada do Círculo de Leitores:

Poesia
“Longínquas Romãs e Alguns Animais Humildes”, 2005
“A Condição Reflexa”, 1989
“27 Poemas”, 1988

Teatro
“Sonho, Paixão, Mistério do Infante D. Henrique”, 1995
“O Ser Sepulto”, 1972

Crónica
“Estados Gerais”, 1991

Ensaio
“Juro Que Sou Suspeito”, 2007

Conto
“Dante Exilado em Ravena”, 1989

Romance
“As Ruas Presas às Rodas”, 2011
“A Cama do Gato”, 2010
“Romance com o Teu Nome”, 2004
“Todos os Tons da Penumbra”, 2000
“Amêndoas, Doces, Venenos”, 1998
“A Parábola do Passeio Alegre”, 1995
“As Portas do Cerco”, 1992
“Mesopotâmia”, 1984
“A Praça de Liège”, 1988
“O Parque dos Lagartos”, 1981
“O Discurso da Desordem”, 1972
“Um Infinito Silêncio”, 1970
“Romagem a Creta”, 1964

Publicado in http://tarrenego.blogspot.com/

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António Rebordão Navarro

Nasceu no Porto em 1933. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi chefe de secção de uma Caixa de Previdência e delegado do Ministério Público nas comarcas de Vimioso e de Amarante, dedicando-se depois ao exercício da advocacia na sua cidade. Secretariou e, posteriormente, dirigiu a revista literária “Bandarra”, fundada por seu pai, o escritor Augusto Navarro. Foi co-director da revista de poesia “Notícias do Bloqueio”. Durante vários anos presidiu à Assembleia Geral da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e foi vogal do Conselho Fiscal da Sociedade Portuguesa de Autores, tendo também sido director da Biblioteca Municipal do Porto. Colaborou em diversas publicações e está representado em várias antologias. Alguns dos seus poemas estão traduzidos para castelhano, francês, checo e sueco. Em 2002 foi-lhe atribuído o “Prémio Seiva” (Literatura).

Publicado in http://www.wook.pt/

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