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António Ferreira: uma vida a carpinteirar

António Ferreira: uma vida a carpinteirar

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NATURAL de Guimarães onde nasceu em 1926, António Ferreira (o Tonecas) veio viver para a Póvoa de Varzim, tinha 15 anos. Casou com Esmeralda Silva, fazendo crescer a família até aos nove filhos. Durante uma vida de duro trabalho conheceu duas profissões: carpinteiro e marceneiro. “Nunca fui peco de mãos. O trabalho nunca me assustou e andei sempre agarrado às madeiras. Como marceneiro fiz muitos móveis, restaurei outros tantos e envernizei até perder a conta. Comecei a trabalhar para o Augusto de Terroso. Mais tarde trabalhei por conta do Quilores do museu, um artista enorme mas complicado de aturar. Aprendi a arte de carpinteiro com o Emiliano que tinha uma oficina ao lado do museu. Posteriormente fui carpinteiro na Câmara Municipal presidida pelo major Mota. A Póvoa tinha muitas ruas, em terra batida. Eram mais as carroças e carros de bois que os automóveis. Na Câmara eu era pau para toda a obra. Aguentei dois anos, e fui carpinteirar para o Mário da Tabaqueira”.

António Ferreira recorda o tempo em que a única fartura dos pobres era a miséria: “trabalhava de sol a sol e trazia para casa uma côdea de pão. Para além de fazer portas e janelas e assentar tudo no lugar, ainda ia fora de horas arrancar pedra da terra para o pedreiro fazer a casa, às vezes do próprio quintal onde estava a ser construída”.

A obra mais emblemática para António Ferreira e que teve muito do seu suor foi a Praça de Touros, mandada construir por Artur Aires, em 1949. “A Praça de touros é agora toda em pedra e em cimento, mas originalmente o seu interior e as bancadas foram construídos em madeira pelas minhas e outras mãos. Foi uma obra notável de carpintaria. O empreiteiro principal era de Viana do Castelo, mas foram também contratados vários mestres poveiros. Antes a tourada fazia-se no estádio Gomes de Amorim, onde estão as piscinas municipais e a academia de ténis”. Conclui.

As minas de chumbo da Várzea de Trovões, no Alto Douro, foi outra das etapas da vida de António Ferreira. “Era uma mina muito antiga. Foi preciso renovar tudo e construir de novo. Fui contratado para fazer os escritórios e os barracos para os mineiros, porque casas é outra coisa. Depois acabou as construções no exterior e fui trabalhar para o poço mestre, para a cofragem. Era um poço dividido em três partes onde trabalhavam os elevadores. A armação foi toda feita em madeira. Em cada três metros levava um patamar com uma escada. Só os mineiros que trabalhavam dentro da mina podiam utilizar o elevador, as outras pessoas utilizavam a escada. O trabalho das minas era muito duro e metia medo. O poço mestre tinha centena e meia de metros. Quando se olhava para baixo não se via nada. Aí trabalhei três anos. Primeiro vivi sozinho num barraco. Depois com a mulher e os primeiros filhos. Quando veio viver comigo, a minha mulher alugou um burro para carregar os filhos, porque aquilo era só montes e caminhos de cabras. Teve que fazer mais que uma viagem para reunir a família toda. Vale que ainda não tinham nascido todos”.

António Ferreira viveu o tempo em que os carpinteiros faziam as suas próprias ferramentas: “quando não sabiam fazer davam a quem sabia, plainas em madeira, de vários tamanhos e medidas, enxós, réguas e esquadros. As lâminas de corte eram encomendadas ao ferreiro. As plainas em ferro vieram muito mais tarde”.

Já aposentado, António Ferreira virou artesão: “com o tempo em liberdade, comecei a fazer umas peças de artesanato. Fiz tabuleiros com quebra-nozes, baldinhos de madeira, vertedouros, poitas, maços de madeira ou caixas de costura com gavetas articuladas. Uma ocasião, fiz umas dezenas largas de poitas (antiga âncora das lanchas poveiras) para oferecer aos convidados do casamento do filho da Carpintaria Matos, meu antigo patrão. A ideia passou por em vez de dar um charuto a cada convidado, dar uma poita feita por mim”. E conclui: “a minha ferramenta de carpinteiro está a ficar cansada como eu. Andei com a vida às voltas. Agora tenho 87 anos e vivo o tempo da paciência”.

Publicado in A VOZ DA PÓVOA

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