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Antero Braga (Livraria Lello)

Antero Braga (Livraria Lello)

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IPORTO [i] Iniciou-se no “mundo dos livros” há mais de 42 anos. Foi um acaso ou era já vocação?

Antero Braga [ab] Vim aqui parar por acidente e não por vocação. Sou natural da freguesia do Bonfim e na altura estudava no Instituto Comercial do Porto. No final do ano lectivo fui de férias e esqueci-me de fazer a matrícula, o que não deixou o meu pai nada satisfeito com a brincadeira. Resolvi então responder a um anúncio de emprego para o cargo de contabilista de uma empresa chamada Bertrand, situada na Rua 31 de Janeiro. Fui seleccionado e entrei ao serviço em Julho de 1968. Passado uns meses, em Dezembro, pediram-me para vigiar as pessoas que entravam na livraria, no sentido de ver se não tiravam este ou aquele livro. Como nunca tive espírito de polícia, em vez de vigiar comecei a atender os clientes. Entretanto, fui chamado ao director da zona Norte que me disse claramente: “Olhe, se você quiser ficar na contabilidade tem 50 escudos de aumento, se quiser ir para a livraria são cem escudos de aumento”. Nessa altura estava prestes a completar 19 anos e o que eu queria era de facto dinheiro. Mas não pensava que a minha vida iria ser aquela. Estava nos meus horizontes ser empregado na Companhia de Seguros Tranquilidade, onde tinha o meu padrinho de baptismo como funcionário superior. No entanto, acabei por ficar na livraria e apaixonei-me pelos livros.

I_ Nunca mais “abandonou” a profissão?

ab_ Entretanto, tive que cumprir o serviço militar e, graças à ajuda da Dra. Laura Sá Carneiro Figueiredo, fui parar à intendência, passando à margem do problema de Ultramar. Terminado este período regressei da tropa a meio de 1974, já após a eclosão do 25 de Abril, e fui tomar conta de uma livraria que a Bertrand quis abrir em Aveiro. Fui convidado para chefe de departamento das lojas e agências da Bertrand, acabando por ser o mais novo gerente da loja, com 23 anos, e o mais novo chefe de departamento de lojas e agências, com 28 anos. Aos 29 anos saí da empresa e estive algum tempo a trabalhar como chefe de departamento e marketing, em Portugal, da Editora Abril Cultural. Nesse período ainda fiz alguns programas de televisão, nomeadamente o Passeio dos Alegres com Júlio Isidro.

Ao fim de nove meses regressei à Bertrand e, com 32 anos, fui o director geral mais novo da empresa, vindo mais tarde a assumir o cargo do administrador mais novo de toda a Bertrand. Enquanto administrador, fiz parte de um grupo de trabalho que recuperou a Bertrand de um período conturbado nos negócios, mas faltava ter algo que fosse meu.

I_ É então que surge o negócio da Livraria Lello?

ab_ Foi aí que surgiu a possibilidade de ficar com a Livraria Lello, que na altura se dedicava à actividade de editora e se encontrava em decadência, longe de ser o marco que é agora. Lembro-me de trazer aqui a minha mulher e ela dizer que eu não estava bom da cabeça para trocar uma coisa pela outra. A verdade é que entreguei-me à livraria e àquilo que amo e gosto de fazer.

I_ Enquanto gestor da considerada terceira melhor livraria do mundo, na qual não só o edifício faz sucesso, mas também a sua reputação, qual é o seu segredo?

ab_ O segredo é ser diferente, desconfiar todos os dias de nós mesmos, e ter uma empatia muito grande com os clientes. O meu lema é que o livreiro nada sabe, mas sabe sempre alguma coisa. Se me perguntarem se gosto de matemática, digo que não, mas se me pedirem, sei aconselhar um bom livro do tema. Procuramos ter um atendimento de excelência e ter uma livraria diversificada em termos de stock. Actuamos no sentido de satisfazer o cliente, é o que faz com que esta casa seja conhecida a nível nacional e internacional.

I_ É verdade que têm mais reconhecimento no estrangeiro que propriamente em Portugal?

ab_ O grande problema dos portugueses é que sempre tiveram grande falta de auto-estima. Na verdade, damos mais entrevistas para o estrangeiro do que para publicações nacionais. Não investi nada em divulgação, o que procuro é ter uma oferta tão diversificada que dê para atender um português, um francês ou um alemão. O povo português é muito capaz e é com muito orgulho que, ao longo destes anos, temos ganho imensos prémios.

I_ O que significam para si essas distinções?

ab_ Ser considerada a mais bela livraria de raiz pelo jornal The Guardian é uma coisa agradável, faz bem ao ego. Depois, ser considerada, pelo Ministério da Economia e a Escola Superior de Comércio de Lisboa, a loja tradicional de maior qualidade deste país é também algo que me soube muito bem. Sermos galardoados como a terceira melhor livraria do mundo é o prémio que mais me orgulha. É o prémio que maior satisfação nos dá, mas também o que nos atribui uma enorme responsabilidade. Procuro sempre dar o melhor que sei e o melhor que posso e procuro também todos os dias aprender com os mais novos. Não quero perder o correio das novas gerações.

I_ Mas gostava de ser a primeira?

ab_ Gostava.

“O livro tem no leitor uma paixão e uma carga emotiva muito grande, pelo que dificilmente será substituído (…) O livro jamais deixará de estar junto do ser humano”.

I_ Mas vai fazer alguma coisa por isso?

ab_ Vou procurar. A única coisa que posso dizer é que dentro desta casa os meus colaboradores estão empenhados em ganhar o prémio. E ousar não é nada de extraordinário. Ousar ajuda muito a ganhar. Também fomos, há pouco tempo, galardoados com a Medalha de Mérito de Grau Ouro da Cidade do Porto, o que claramente me honrou, enquanto empresário e enquanto portuense. Espero um dia ser reconhecido no nosso país como alguém que contribuiu para que a cultura de Portugal fosse cada vez melhor. É uma ambição pessoal.

I_ Ao longo da sua carreira teve oportunidade de conhecer ilustres figuras do mundo das Artes e das Letras. Houve alguém que o tenha marcado de forma especial?

ab_ Pude de facto conhecer gente muito importante, como o Sr. Manuel Pinto de Azevedo, uma figura que acabei por acompanhar de perto. Fui muitas vezes, quer

Ao jornal “Primeiro de Janeiro”, quer a casa dele, dar um jeito à biblioteca magnífica que ele tinha em ambos os lados. Conheci também a Dra. Laura Sá Carneiro e o Óscar Lopes… Lidei com imensa gente que me marcou. Mas em especial quero referir um homem que conheci muito mais tarde, tratou-se de Agostinho da Silva, uma pessoa com uma fibra extraordinária. Quer ele, quer o embaixador Franco Nogueira, foram as pessoas que mais me marcaram no seu todo, e não estamos a falar em termos literários, pois aí teríamos de falar de Vergílio Ferreira, Fernando Namora ou mesmo José Cardoso Pires, que foram pessoas com quem tive uma actividade muito próxima.

I_ É verdade que os “livreiros” são uma profissão em vias de extinção?

ab_ O que me preocupa sobretudo, no que respeita ao mercado livreiro, é a concentração de três actividades numa só instituição. Isto de ser editor, distribuidor e livreiro é perigoso. Pode levar à colonização de um povo. Acho que é na diversidade que se encontra as diferenças e se consegue encontrar as vias alternativas para a construção de um mundo melhor. O editor deve editar, o distribuidor deve distribuir e o livreiro deve ser o contacto com o público.

I_ E as novas tecnologias, como o ipad e o Ebook, não são também uma ameaça?

ab_ Quanto ao ipad o que digo é que é natural, o que é novo tem um crescimento exponencial. Não estou a ver o ipad a ser um concorrente do livro. O livro tem no leitor uma paixão e uma carga emotiva muito grande, pelo que dificilmente será substituído. Agora, ao nível escolar e das áreas técnicas, o Ebook e as novas tecnologias vão assumir posição. No resto é impossível o livro ser substituído. O livro jamais deixará de estar junto do ser humano.

Publicado in http://iporto.amp.pt/

1 COMENTÁRIO

  1. Bom dia Sr. Antero,
    Tive o gosto de o ter conhecido e ter trocado algumas palavras consigo na minha última visita à Lello.
    A Lello é um espaço que não existe em mais nenhum lugar do mundo, o que faz que quem a visite volte sempre. Embora viva na Suíça é o que faço religiosamente sempre que me desloco a Portugal.(uma ou mais tardes passadas na Lello)
    O seu atendimento de proximidade, é tudo que alguém que se interesse por livros está á espera de encontrar.
    Não mais esquecerei o novo sentido de orientação que consigo aprendi: o (AJP)!!!
    Sem mais assunto
    Os melhores cumprimentos
    Até breve
    José Alberto Postiga

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