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Anabela Freire

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NESTA edição continuamos a apresentar entrevistas feitas a ermesindenses que tenham algum tipo de atividade relacionada com a música. O propósito é o de dar voz a quem tem algo de importante e interessante a dizer sobre música, seja ela de que estilo for. São pessoas que vivem em Ermesinde e que nos dão a sua visão sobre a sua cidade como cidadãos atentos. Mensalmente, tentaremos demonstrar que em Ermesinde vivem, estudam e trabalham pessoas com presente e futuro na música.

Este mês, Anabela Freire, licenciada em Flauta Transversal pela Escola Superior de Música Artes do Espectáculo. Estudou também no Conservatório de Música da Cidade Invicta, frequentando atualmente o Mestrado em Música da Universidade de Aveiro. Participou em cursos de Pedagogia Musical e de Musicoterapia. Gravou para a RDP – Antena 2.

“A Voz de Ermesinde” (AVE) – Comecemos pelo presente; neste momento estás envolvida em que trabalhos?

Anabela Freire (AF) – No presente ano letivo estou a lecionar no Conservatório do Vale do Sousa – Lousada, e no Conservatório de Música de Felgueiras, onde integro a Direção Pedagógica. Ao mesmo tempo estou a terminar o Mestrado em Ensino Vocacional de Música, na Universidade de Aveiro.

AVE – Sentes-te mais realizada como professora?

AF – Sinto-me muito realizada, todos os dias. Tenho o privilégio de fazer o que realmente gosto.

AVE – Enquanto flautista, sentes-te mais à vontade como solista ou inserida numa orquestra ou grupo de música de câmara?

AF – Gosto muito de ambos. Neste momento, sinto-me mais à vontade em música de câmara.

AVE – O meio musical é algo que te é familiar de há muito tempo?

AF – Desde a infância.

AVE – Qual foi a motivação para a prática da Música?

AF – Inicialmente, os meus pais. Depois, foi o puro prazer de fazer música.

AVE – Que tipo de experiências já tiveste enquanto fazias música?

AF – Felizmente muitas experiências boas, como tocar para um grande público, em auditórios cheios, em música de Câmara, a solo com Orquestra, ou inserida numa Orquestra. Lembro-me por exemplo de tocar a “Carmina Burana” com a Orquestra do Norte, na cerca do Castelo de Óbidos, com lua cheia e um ambiente mágico. Outra experiência que recordo muito foi ter dirigido um Coro com músicos holandeses, suecos, portugueses e lituanos, durante uma semana, em que aprendi muito, em Malmö, na Suécia. Tive também experiências engraçadas, como concertos de Carnaval, ou na Banda, em coretos a abanar.

AVE – Que planos tens para o futuro?

AF – Acabar o Mestrado, continuar a dar aulas, porque gosto muito, ter um grupo de Música de Câmara e experimentar algo que ainda não tenha feito.

AVE – Que sonhos tens para esta atividade?

AF – Que haja mais desenvolvimento cultural do País, porque é na Educação e na Cultura que um país se demarca perante os outros (pelo melhor e pelo pior).

AVE – Por falar em futuro, que modelo de divulgação prevês para a música?

AF – A música é das atividades mais divulgadas. Infelizmente limita-se muito ao estilos comerciais (pop, rock,…), que são uma pequena fração do que devia ser o âmbito de escolha do público. O público português é muito díspar: ou é culto, conhece vários géneros musicais e procura conhecer mais, para poder escolher; ou só conhece um ou dois géneros , e “escolhe” ouvir sempre o mesmo, porque nunca conheceu, nem quer conhecer, outro. Digo isto sem preconceitos, porque para mim, a Música é só uma: apenas creio que se deve conhecer, para não se ficar limitado, e sempre à parte de experiências diferentes. Existem estudos que demonstram que a audição e execução musical têm diferentes efeitos no cérebro, conforme o género musical. Afetamos o nosso cérebro com a música que ouvimos, por isso, talvez seja melhor escolher a que tem efeitos mais benéficos (já agora, os compositores clássicos estão entre os mais benéficos, a nível do desenvolvimento do cérebro e do sistema nervoso).

AVE – O que é possível fazer no meio musical para sobreviver? Ou essa ideia está errada, a de que não é possível viver de forma normal pela música e da música?

AF – Pode viver-se confortavelmente da Música, desde que se conheça o mercado, se procure formação para o que se quer fazer, e se seja Bom no que se faz. No fundo, a mesma receita que para qualquer profissão, creio. Só não podemos ficar parados, em casa, à espera que as coisas aconteçam por si, ou insistir numa atividade que já esteja repleta de profissionais desempregados, onde não há perspetiva de emprego. Não basta ter formação, é preciso ter perspetiva da utilidade da formação no mercado de trabalho.

O meio musical é imenso: desde maestro, compositor, instrumentista/cantor, professor do ensino especializado ou do genérico (desde o infantário à universidade sénior), investigador, musicoterapeuta, vendedor ou “luthier” de instrumentos, produtor musical, técnico de som, programador cultural/musical, afinador de pianos, etc…

AVE – Mudando de assunto, passemos ao meio que te rodeia, à cidade onde vives e que te acolhe nos teus projetos. Vives em Ermesinde há quanto tempo?

AF – Vivo cá há 30 anos.

AVE – Na generalidade, que te parece Ermesinde?

AF – É um subúrbio. Tem alguma atividade cultural, por exemplo no Fórum Cultural de Ermesinde. Por outro lado está muito perto da oferta cultural do Porto, e por isso há um misto de desejo e apatia cultural local.

AVE – Que achas da cidade em termos ambientais e culturais? Havia algo que gostasses que fosse mudado?

AF – A nível ambiental, o básico: era bom haver mais caixotes do lixo nas ruas e que as pessoas os usassem, e que pudéssemos andar pelos passeios, sem termos de estar constantemente atentos à porcaria canina, espalhada pelo chão.

Culturalmente: Não apenas na cidade, mas no País, duas coisas: a conceção de som – ainda se sente muito enraizado o “quanto mais alto melhor!” É assim que ouço muitas apresentações que deviam ser musicais, em vez de devastadoras para a saúde pública. Desrespeita-se frequentemente os limites de intensidade do som nos espetáculos, inclusive os que têm crianças no público! Isto é grave.

Por outro lado, já era hora dos agentes culturais do concelho serem mais profissionais na apresentação de espetáculos. Desde o cumprimento de horários (quer de ensaios, quer do início dos espetáculos), ao respeito pelo público, principalmente os níveis de audibilidade, mas também as apresentações em si serem mais cuidadas, menos relaxadas (para não dizer desleixadas). A título de exemplo, no verão passado, durante a Expoval, houve um convite para uma participação musical de crianças e jovens no Parque da Cidade de Ermesinde, que nunca mais começava, porque o grupo musical que ia atuar à noite se atrasou a começar o ensaio; então estiveram a testar arrogante e interminavelmente o som, e a pessoa encarregue de gerir as apresentações não tomava nenhuma atitude, dizendo que não podia fazer nada. Que é isto?? Acham que não sabemos o que é organizar e realizar espetáculos? Ou pior: que nunca vamos a espetáculos devidamente organizados, fora da cidade, ou do país? As crianças, jovens e pais esperaram educada e incredulamente, e a apresentação começou uma hora depois do previsto! Espero que melhorem, profissionalizando-se. Quanto aos pais, deviam exigir respeito, e reclamar o direito à qualidade dos espetáculos, como um todo.

Por Filipe Cerqueira publicado in http://www.avozdeermesinde.com

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