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Aida de Melo Brito Nunes, 95 anos

Aida de Melo Brito Nunes, 95 anos

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AOS 95 anos, Aida de Melo Brito Nunes continua a dirigir a Farmácia da Lapa. Todos os dias é ela que abre o estabelecimento e não vai embora sem encerrar as portas. “Gosto de ficar até fechar e fazer as encomendas para o dia seguinte”, garante ao GRANDE PORTO.

Desde 1955 que é assim. Os anos não parecem pesar a esta farmacêutica, natural de Aveiro, “de uma aldeia chamada Alquerubim, que quer dizer todos os anjos”, como faz questão de explicar.

Diz que descende “de uma longa dinastia de farmacêuticos”. O pai já tinha o ofício, assim como o tio e padrinho e a irmã mais velha. Mas este nem sempre foi o sonho de Aida. “Só segui Farmácia por uma questão económica. Já naquele tempo me preocupava com essas coisas”. Conta então que, nos idos da década de 30, os pais tinham as quatro filhas a estudar, o que representava um grande encargo para a família. A sua vontade era seguir medicina. “Eu achava que no meio de tantos farmacêuticos um médico havia de dar jeito”. Mas os tempos eram outros e, para exercer medicina, teria que ter um consultório próprio. É então que entra na equação a questão monetária. “O meu pai teria que me montar um consultório e isso iria representar uma grande despesa. Foi por isso que optei por Farmácia”, conta. E nunca se arrependeu.

Aida nasceu em Março de 1916, a última filha de uma prole de quatro. “Naquele tempo não havia enfermeiras parteiras ou médicos que fizessem os partos”, recorda. Os primeiros partos tinham corrido bem, mas quando deu à luz a filha mais nova, a mãe ficou “entre a vida e a morte”. Sem condições para criar um bebé, a família decide entregar Aida aos cuidados dos avós, um facto que haveria de a marcar ao longo da vida. “Nunca aceitei nenhuma proposta de emprego que implicasse afastar-me dos meus avós, e olhe que tive algumas muito boas”. Como quando a convidaram para ir abrir uma farmácia em Sá da Bandeira, em Angola. “Ia ganhar muito dinheiro, mas tive que rejeitar”.

A vida no Porto

Ainda hoje mantém casa e terras em Alquerubim, mas vai lá menos vezes. “Já ninguém quer trabalhar a terra”, lamenta. “O meu caseiro, que plantava a horta, chegou a dizer-me que preferia comprar uma lata de feijão no supermercado do que ter o trabalho de o plantar”.

Mas a vida na aldeia nunca foi fácil e foi por isso que os pais da farmacêutica decidiram tentar a sorte mais perto do Porto. Partiram de armas e bagagens, com quatro filhas a tiracolo, e instalaram-se em Valadares, em Gaia, quando Aida tinha apenas sete anos. O pai abriu a Farmácia Central de Valadares, que ainda existe, e as filhas foram estudar para o Porto. A mais nova começou a frequentar a 2ª classe na Escola de Santo Ildefonso. Terminada a instrução primária, onde foi “a melhor aluna”, rumou ao Carolina Michaëlis, onde fez o liceu.

Em 1935 entrou, juntamente com mais 31 colegas, 16 rapazes e 15 raparigas, para a Faculdade de Farmácia do Porto, a única que existia no país. “Em Coimbra e em Lisboa só havia a Escola de Farmácia e a formação era de apenas três anos”. Recorda que muitos não chegaram ao fim do curso, levados pela febre tifoide e pela tuberculose.

Termina a licenciatura em 1940 e decide que não quer ir trabalhar para uma farmácia. “Eu era boa aluna e um professor convidou-me para ir para um laboratório de especialidades farmacêuticas. Nem pensei duas vezes”. Esteve nos laboratórios, na Rua do Bonjardim, no Porto, 15 anos. Despediu-se quando soube que iam dispensar uma colega de trabalho com mais anos de casa. “Não podia permitir isso. Eu saí e ela ficou”.

A Farmácia da Lapa

Foi nessa altura que começou à procura de uma farmácia para montar o seu negócio. O edifício onde ainda hoje funciona a Farmácia da Lapa estava em construção e Aida achou que seria um bom local para começar. “Fui falar com o empreiteiro que se disponibilizou logo a pôr tudo como eu queria. Escolhi como queria dividir o espaço, como queria o chão, tudo!”. Apesar das várias remodelações, ainda hoje conserva os móveis originais no escritório que fica nas traseiras do estabelecimento.

Garante que sempre teve “um espírito inquieto”, e talvez por isso tenha decidido começar a escrever o Jornal de Albergaria só para poder ir almoçar à cantina da Casa dos Jornalistas. “Eu trabalhava ali perto, ainda no laboratório, e dava-me jeito lá ir com o meu marido. Mas só os jornalistas é que podiam frequentar a cantina. Disseram-me que se colaborasse com um jornal podia entrar sem problemas. Assim fiz”, conta, enquanto mostra o recorte de um artigo datado de 1952.

Essa inquietude levou-a ainda a fazer a licenciatura em enfermagem e a ensinar aos seus colaboradores, nos quais se incluia o marido, a melhor técnica para dar uma injecção.

É com orgulho que fala do filho, “um filho único que vale por 100”, e dos quatro netos e dois bisnetos. Apesar de ter enviuvado não se sente só. Os descendentes não deixam que isso aconteça. Quando lhe perguntámos se não se sente cansada quando trabalha até às 2 horas da manhã, nos dias em que a farmácia está de serviço, responde com um tímido “acho que não…”.

Por Ana Caridade publicado in http://www.grandeportoonline.com/

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