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Agustina e Manoel de Oliveira por Inês Pedrosa

Agustina e Manoel de Oliveira por Inês Pedrosa

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INÊS Pedrosa, a excelente cronista portuguesa que leio no Expresso, escreve aqui sobre dois seres inacreditáveis: ele, o cineasta Manoel de Oliveira, 102 anos recém-completados, e ela a escritora Agustina Bessa-Luís, 88 anos também recentemente comemorados. Sentem-se numa poltrona confortável e leiam com atenção: tudo a ganhar. Lição de vida e lição de português, nem sei dizer qual a mais forte.

Agustina e Manoel

por Inês Pedrosa

Uniu-os sempre o brio, a coragem e a verdade.

Quarta feira, 17 de Novembro de 2010

Manoel de Oliveira disse há semanas, no Escritaria de Penafiel, que gostaria que o seu último filme fosse “A Ronda da Noite”, o último romance de Agustina. Faz sentido que duas vidas artísticas que andaram sempre juntas se concluam do mesmo modo: com prodígios paralelos, íntimos e livres. Agustina e Manoel não foram companheiros de profissão, nem pensavam e sonhavam as mesmas coisas, nem viam o mundo da mesma maneira. Por isso mesmo, deixaram-se inspirar profundamente um pelo outro. Se Agustina fizesse cinema, não faria os filmes de Oliveira; se Oliveira escrevesse, não faria os romances de Agustina – isso é muito nítido nas imagens dos livros dela e nos textos dos filmes dele (até mesmo quando são textos dela). Mas a verdade é que, quando Oliveira não conseguiu os direitos de um livro que queria filmar, aproveitou o subsídio e filmou o livro que ela acabara de lhe oferecer (“Fanny Owen”).

Uns anos mais tarde, o cineasta queria realizar a “Madame Bovary” de Flaubert e o produtor demoveu-o: já havia uns três filmes em curso sobre o mesmo livro (argumento pelo qual Oliveira não se deixou vencer) e, sobretudo, era muito caro filmar em França. Oliveira pediu então a Agustina que escrevesse um romance sobre uma Bovary portuguesa, e foi assim que nasceu a fantástica Ema de “Vale Abraão”. O que unia Agustina e Oliveira era a capacidade de trabalhar bem e depressa, o brio de não deixar uma encomenda ou um pedido sem resposta, e a alegria da resposta a um desafio. Nada disto é pouco – e é raro. Ninguém veria Agustina com a cabeça pesando-lhe, solene, sobre a mão, cogitando daqui a quantos séculos será ainda lida a sua obra.

Ninguém nunca a viu invejosa dos prémios alheios ou de leque alçado em posição de glória. Preferiu sempre o prazer – e os leques, invariavelmente bem escolhidos, usou-os sempre e só para se refrescar, ou para dar uma aragem a quem estivesse perto. Oliveira, nisso, é seu igual. Muito estranhas lhe devem parecer estas greves francesas de gente que se revolta porque lhe dizem que há-de trabalhar até aos 62 anos. Isso era a idade que Oliveira tinha em 1970, e depois disso fez 28 longas-metragens.

Antes de “A Ronda da Noite”, o realizador tem vários outros projectos. Diz que tem pressa, porque não sabe o tempo que tem. A pressa de Oliveira é oposta à velocidade contemporânea, que nos dispersa e nos impede de pensar. É a pressa das crianças, que não percebem porque é a verdade menos importante do que as conveniências, nem porque hão-de calar o que sabem e desistir das perguntas sem resposta. É a pressa de quem quer descobrir um bocado mais do segredo da vida antes de sair dela. Aos cem anos, uma pessoa deve ter a esperança de se tornar imortal, no sentido real e não metafísico do termo – mas tem sempre também o medo de que não seja assim.

Uma das mulheres mais inteligentes que conheço é cabeleireira de profissão e repete todos os dias aos filhos pequenos, quando amuam ou fazem birras: “Para que te estás a chatear com tão pouco? Vais morrer. Vê se aproveitas a vida”.

A grande lição é esta, a da mortalidade que espreita na esquina. Somos o único animal que tem consciência da sua mortalidade, e o único que se comporta como se fosse imortal. Para não pensar, cindimos: obrigações e devoções, vida e arte, corpo e alma. Na era do sexo libertado, somos platónicos: uma coisa é o que faz o corpo, outra bem diferente a alma que nele se passeia.

Dizemos: “um dia destes”, como se soubéssemos que dias nos cabem. Dizemos: “é para o bem dos nossos filhos” como se tivéssemos o mando sobre o bem deles, que não será outro, no dia de hoje, senão o de contar connosco, mortais e inteiros em tudo o que somos. Agustina e Oliveira são assim: livres, isto é, tão incapazes de se deixarem tolher pelo pensamento alheio como de tolherem o pensamento dos outros.

Fascinados pelo mistério de cada criatura e atentos ao que continuamente brilha debaixo das aparências. Nunca se deixaram abater por obstáculos; sempre tiveram o bom gosto de manter a alegria e dizer a verdade em todas as circunstâncias.

Foi assim que ele refez o cinema a partir do zero, do seu particularíssimo zero – e ela a literatura, do mesmo modo. Chamam-lhes difíceis porque não é fácil olharmos o rosto da verdade, tem uma luz demasiado forte que não se compadece com meios tons e meias vidas. Não, Agustina e Manoel não são difíceis – a vida que vivemos é que se tornou demasiado fácil, demasiado cobarde, demasiado triste. Manoel de Oliveira tem muito que fazer: ao contrário do país, ele não tem tempo para estar em crise. Nunca teve.

Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 13 de novembro de 2010 e no jornal Expresso.pt em 17 de novembro.

Por Maria Helena in http://oglobo.globo.com/

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