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À memória de João Correia

À memória de João Correia

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JOÃO Correia foi um fadista do Porto. Um dos melhores, dizia-se, a dar voz à tradição numa cidade que, com mais solenidade ou vadiagem, ainda pede meças no fado. Mas João Correia não foi apenas o homem que tentou a sua sorte na «fadistagem». Militante do PSD, foi segurança de Francisco Sá Carneiro nos tempos de brasa dos primeiros anos de democracia. A sua vida teve dias auspiciosos, com promessas de glória. Mas cedo a má sina o apanhou na esquina. Recordo-o agora. Soube, não há muito tempo, que faleceu em 2008, creio. Entrevistei-o no final dos anos 90 a pedido do então editor Pedro Marta Santos para o semanário O Independente – o grande Egídio Santos ainda deve ter fotos disso – e, tirando alguns esporádicos contactos desde então, não mais tive notícias dele. Até recentemente. Em sua homenagem e sem saber do seu paradeiro, reescrevi uma parte da reportagem/entrevista que então lhe fiz para publicar no meu livro Aqui na Terra, editado em 2009 pela Deriva. É esse texto que aqui vos deixo, fazendo jus ao título que ele me deu, sem querer.

Calçada da Serra, ilha do Coelho, Gaia.

O que parece é: um lugar medonho, espécie de última morada da existência para vidas debaixo da ponte, como atesta o imponente pilar da ponte D. Luís I, lá de cima.
Cá em baixo trata-se a sobrevivência por tu.
Um homem, a mulher e dois filhos vivem num espaço em que mal se podem mexer, da cozinha para o quarto, com um corredor estreito de permeio.
E, no entanto, eis-nos num lar onde se juram promessas de amor quase eterno. «É pequenina, mas os meus pais viviam aqui, deixaram-me isto e fui ficando. É nossa, não pagamos nada. Um dia, queria deitá-la abaixo e fazer de novo. Para ter mais espaço».
A voz é grossa, encardida pelos anos.
João Correia tem fotos espalhadas pelos cantos, cassetes e discos seus e de outros, memórias empacotadas. Ah, e é claro, o Benfica, enfeitado, esculpido, medalhado, idolatrado.
Idolatrado…Palavra que João Correia conhece como o timbre da sua voz ou as trezentas cantigas que sabe de cor e salteado. Cantaria um mês, se preciso fosse, sem repetir alguma. Memórias de outros tempos, «da fadistagem.»
João escreveu, cantou e gravou.
Deu entrevistas, conheceu os melhores, os maiores.
E dele também diziam, ainda lhe dizem, «és o maior, pá.»
Mas de que serve isso a um trolha? Triste fado esse, argamassa dos seus dias.
A voz de João Correia calou-se para a posteridade no início dos anos 90, a última vez que a emprestou para a fita magnética.
Nove lançamentos depois, o silêncio. Noves fora…nada.
Agora, quem quiser vê-lo apanha-o em Candal, nas obras.
Vê-lo e ouvi-lo, já é mais difícil.
Anda no fado vadio, quando calha não lhe ferirem o orgulho, ou o pão para a boca falar mais alto do que pede a sua voz.
«Oferecem-me três, cinco contos, por noite. Noutro dia, eram sete contos e quinhentos. Você acha que devo aceitar isto? Tenho de mandar lavar o fato, limpar os sapatos, aperaltar-me. Nem compensa a despesa. E tenho a minha dignidade a defender. Se é assim, prefiro ir para as obras. Ganho seis contos…»
Se esta angústia fosse pesada, cantada até, que fado não daria.
Olhado nos olhos, João Correia tem encovada a amargura de ter subido tão alto que nem se apercebeu quando perdeu o pé. Desde aí que anda a remoer o seu fadário.
Mastiga, mastiga, mas não lhe passa na garganta.
Não estivesse tão engasgado na vida e desafiava para uns ajustes uma certa escumalha que conhece. «Hoje, o que se quer é artistas com o corpo bonito, muita quantidade e pouca qualidade. Às vezes, até me enraivece ver alguns na televisão». A mulher já deu com ele a chorar.

Foi em palcos improvisados das tascas e botecos que começou a cantar. Tinha 15 anos, este homem gasto, nascido em Gaia há 55.
O pai tocava viola, o avô cantava, ele apanhou o bichinho.
Estudou até ficar à porta do exame de admissão ao liceu.
Mas a sua escola, a verdadeira escola, foi o Candeia, casa mítica do Porto, de meninas, fado e boémia. Uma religião! «O Candeia teve durante mais de quarenta anos o mesmo empresário, o João Augusto de Almeida. Em 1964, eu recebia 80 escudos por dia, bem bom. E nunca faltou caixa para quem trabalhou naquela casa.»
Entusiasmou-se. Entusiasmaram-no.
Ia a todas, nem sequer faltava a espectáculos de beneficência.
Um dia, não se lembra quando, deslumbrou-se: «A ida para Lisboa foi uma tentativa de chegar mais alto pois, no Porto, já naquela altura, estagnava-se. Quem me ajudou muito foi o Fernando Maurício, a quem chamo o meu menino do fado. Foi a melhor época da minha vida», anos vividos entre o Bairro Alto e a Mouraria, quase sem excepção. A duzentos escudos por dia, nos tempos áureos.
Vivia na Rua da Atalaia, 61, 3º.
Faz questão de dar a morada completa para atestar quanto aquela vivência o marcou.
«Lisboa era um mundo. E não me faltaram amizades e gente solidária».
Quiseram levá-lo para Paris, mas o dinheiro não casou com a sua tentação.
Na capital, haverá quem se lembre dele do Forcado, do Mil e Um, do Tipóia, da Adega Mesquita, do Solar da Madragoa, do Senhor Vinho e do restaurante Luso.
Contas por baixo. «O Luso chegou a ter quatro mil contos em garrafas de whisky», recorda.
Onde estivesse, João Correia era figura de cartaz. Mesmo pelas más razões.
Um dia, deu uma carolada num desconhecido só porque este olhou para a montra da Adega Mesquita onde estava uma fotografia dele, o artista, e disse: «Este gajo deve ser do Porto, tem mesmo ar de saloio.»
Outras zaragatas houve. Cenas caricatas.
«Havia sócios do Benfica que vigiavam algumas casa de fados. Uma vez, às três e tal da madrugada, vi o Eusébio, o Vítor Martins e outros jogadores no Maxime. Um dos que assistiu à cena foi o Tristão da Silva também. Nisto, há um tipo que liga para a sede do Benfica – havia sempre alguém para atender – e dez minutos depois aparecia uma camioneta para os levar. Os tipos tinham jogo nesse dia e andavam ali àquela hora. Já estava tudo um bocado com os copos. Outros tempos.»
Nas noites e noites que numa só noite lhe aconteceram, parafraseando o poeta Ary dos Santos, João Correia bebeu quase tudo de um gole: amizades, neuras, solidariedades, boémia. E mulheres, muitas mulheres.
«Era gajas todos os dias. Quando acordava, elas começavam todas com a mesma conversa: mais logo fazemos isto, mais logo fazemos aquilo. E eu…mais logo?! Ó filha, foi só isto, não há mais nada. Vais à tua vida, que eu vou à minha. Eu era um mangas.»
O feitiço traiu-o, uma vez: apaixonou-se por uma artista de variedades, mas «partiu a perna», por assim dizer.
A rapariga deu-lhe a volta ao miolo, água pela barba.
E um filho.
A última vez que o viu tinha dois anos, talvez três. Terá 18 ou 19 agora. E o pai ainda guarda uma fotografia dele na antiga carteira de associado da Sociedade das Artes e do Espectáculo.
Directas, fazia-as frequentemente na companhia de Alfredo Duarte Júnior, filho de Alfredo Marceneiro. Entre outros, diz ter contado com a amizade e o convívio de Simone de Oliveira, Marina Mota – «fui júri num concurso em Algés em que ela participou, ela há-de lembrar-se disso» – Beatriz da Conceição, Benvindo da Cruz, Tristão da Silva e Hermínia Silva. Fiel, porém, só a Fernando Maurício, «ouvi-lo é como estar a olhar para aquela Nossa Senhora que tenho ali», aponta.
Referência foi também Fernando Farinha, outro nome grande do fado. «Apesar de não gostar do PC, tinha amigos comunistas. Ele era um deles. Bem, ele era comunista, mas emborcava uma garrafa de champanhe todos os dias, tinha vícios de gente rica. Ele alguma vez precisava de ser comunista? Não quer dizer que o PC seja obrigado a ter só gente pobre, mas burgueses também não cai bem…»
Naqueles tempos, João Correia era homem virgem de qualquer consciência política.
«Eu sabia lá se estava numa ditadura ou numa democracia, sempre me senti um homem livre».
A Revolução de Abril apanha-o em Lisboa. Literalmente.
No dia 25, diz ter sido fechado durante algumas horas pelos militares num antigo casarão da Legião Portuguesa. Ele e outros. Por precaução. Libertado, acabou por ir na onda.
«Eu até sou alérgico ao punho fechado, mas nessa altura andei de punho fechado, nas ruas, a gritar umas coisas. Toda a gente andou.»
Só algum tempo depois, caiu de beiço nas políticas.
Foi cantar a um comício do PPD no Campo Pequeno, trataram-no bem, fez amizades e acabou por se envolver a fundo. A militância emocional deu lugar a outros afazeres em prol da causa:

– Como é que chega a segurança do PSD, João?
– Foi um tipo chamado Anselmo, que conhecia dos meios do boxe, que me desafiou a fazer segurança no partido. Alguns eram recrutados no Parque Mayer, tudo muito discreto. Andei muito com o Sá Carneiro. Ele chegava aos sítios, sabia que havia segurança, mas desconhecia quem eram os homens. Além disso, nem sempre eram os mesmos. E só ao fim de algum tempo, ele começava a notar as caras mais conhecidas.
– Que ideia tinha dele?
– Em 1976, gravei um disco para o PSD de homenagem ao Sá Carneiro. Por aí já vê.
Ao fim de algum tempo, já havia alguma intimidade, ele era muito correcto comigo. Andei mais de um ano naquilo, quase sempre com ele. Mas nem sempre me chamavam a mim. Mais tarde, também levei com o Freitas, nos tempos da AD. Mas esse andava bem artilhado, eram para aí uns trinta gajos…
– Sá Carneiro morre, entretanto…
– A morte dele bateu-me mal. Fiquei em choque. No funeral, chorei como uma criança, nunca vi nada como aquilo.

Presenciou sessões políticas a rodos, momentos de agitação.
Tinha corpanzil, um arcaboiço de meter respeito. «Uma vez, num comício, estava a conversar com um colega e levei uma cacetada, assim sem mais nem menos. Quando apanhei o gajo que me fez isto [aponta para a bolsa do olho] nem queira saber como ele ficou».
Porém, ia sempre um tanto atrapalhado para os locais, os tempos eram quentes. «Sabia-se como se ia, não se sabia como se voltava.»
Ao Alentejo, bastião de esquerda, foi uma vez.
Coisa pouca, exceptuando «um gajo que, no momento do comício em que o Sá Carneiro fazia aquelas orações, quis saltar para as costas dele. Tive de me desenvencilhar do tipo». A bem, no caso. «Mas quando era preciso, lá ia alho!»
Às vezes, estouravam umas bombas, artesanais. «Nós também levávamos algumas connosco para o que desse e viesse.»
Escaramuças políticas. Era o tempo delas. A doer. «Nunca andei nos incêndios às sedes do PC. Não me metia nessas caldeiradas. Mas uma vez ia a caminho de um comício do PPD e vi uma banca de propaganda do PC e outra, mais afastada, do meu partido, a arder. Arranjei logo maneira de deitar fogo à dos comunas, para ficar igual.»
«Eras fresco», atalha a mulher, sempre à coca da conversa.
Alguns militares de Abril provaram-lhe o fel.
Foi no Luso, numa noitada de arromba.
À chegada, o porteiro prevenira-o: «Ó João, tens aí uma colecção de amigos à tua espera.»
Entrou e deu de caras «com o Otelo, o Corvacho, essa seita toda.» E um grupo de turistas russos.
«Então estes é que são os meus amigos?!», pensou.
Sem estalar o verniz, fez-se ao piso.
«Fui cantar. Cantei a primeira, cantei a segunda e, às tantas, ouço um tipo a cantar a Grândola baixinho. Bem, devo dizer-lhe que a Grândola é a coisa mais linda que ouvi. E até gostava muito do Zeca Afonso.»
Não se fez rogado. «Pediram-me para cantar a Grândola e eu disse que cantava o que sabia da letra. Cantei e toda a gente ouviu de pé. A seguir cantei o hino nacional e sentaram-se todos.».
Foi um caldinho.
«Então que raio de merda é esta?! Em que país é que eu estou? Será que os gajos da Rússia não sabem o que é um hino nacional?» Tão depressa o disse que o mal-estar se instalou. Mas a coisa compôs-se.
Ironia das ironias, João Correia tem hoje um vizinho «vermelho» ao pé da porta. «Andamos sempre pegados. Pego nas colunas, viro-as para a janela e ponho música do PSD, só para chatear. Às vezes, até ponho duas bandeiras que tenho aqui, mas o gajo arranja logo umas vinte das dele.»
O diferendo já meteu polícia por causa do barulho. Três vezes.
É para o lado que João dorme melhor. Ou não tivesse ele andado na «boa-vai-ela» com agentes da autoridade, noites fora, anos a fio. Ao ponto de algumas vezes lhe terem pedido ajuda para levar delinquentes à esquadra.
No Porto, então, conhece-os «de ginjeira.»
Com polícias, juízes, advogados, é de abraços e palmadinhas nas costas.

O reencontro com as raízes é o que lhe anda mais atravessado.
Há mais de uma dúzia de anos, um desgosto amoroso apressou-lhe o desejo de fazer as malas e abandonar Lisboa. Julgou poder espraiar por casas nortenhas o talento e estatuto adquiridos na capital. Mas enganou-se.
Aquele já não era o seu tempo. «A partir daí, foi sempre a descer».
Na Ribeira de Gaia, o bar Rabelo ainda o acolheu durante um punhado de anos.
Mas o fado já não era propriamente o seu ganha-pão. «Naquela casa, fiz de tudo. Cantei, fui porteiro, só me faltou servir às mesas.»
O Rabelo fechou, prenúncio de uma evidência. «O Porto não é cidade para aguentar as casas que tem.»
Durante algum tempo, ainda era solicitado com frequência para animar umas noitadas. Mas os convites foram rareando. A alternativa, tal como agora, era vergar-se à esmola enquanto lhe diziam «és o maior, ainda és o maior.»
O álcool passou-lhe a perna, também.
A mulher que o diga.
Por vezes, via-o chegar a casa encharcado em sangue. Não sabia o que lhe tinha acontecido. Nem ele se lembrava.
Alice Correia é quem o ampara. Houve um antes, há um agora.
Ela também canta, à desgarrada, com o seu mais que tudo. Conheceram-se no fado e perceberam que não podiam ficar longe um do outro. Foi numa noite, a caminho de Santo Tirso. «Para lá tudo sério, para cá de língua na boca.»
Ele não gosta da palavra «marido». Nem da palavra «mulher».
«Para mim, é minha amante.» Amante, aquele que ama. «Está tudo dito.»

Nunca mais voltou a Lisboa.
«Se tivesse possibilidades ia de novo, tenho imensas saudades».
Mas a vida, qual fado, foi sina. «O dinheiro não chega, sou só eu a ganhar. Tenho dois filhos a meu cargo e a estudar. E um já foi operado.»
O fado vadio é ainda o seu refúgio. «Eu, quando vou para o fado vadio, pareço o Guterres». Pela presença, pelo respeito que lhe têm, quer ele dizer.
Mas já vai menos. É a fatalidade, o fadário de João Correia.
A ascensão e queda de alguém que julgou sobreviver a si próprio. Sempre no auge.
Há tempos, recebeu um cheque da Sociedade Portuguesa de Autores, onde está inscrito há mais de 25 anos. Eram 150 contos. Direitos autorais. Bom jeito deram.
Continua a escrever para quem lhe pede. Quadras, versos, numa folha de papel, num guardanapo. A inspiração vem-lhe da vida, não dos livros. «O fado está-me nas veias e as palavras saem-me bem quando estou com os copos.»
Já perdeu o tino à quantidade de textos que escreveu.
Atafulhou tudo em pastas, caixas e caixotes, gavetas e gavetões.
Às vezes, oferece aos amigos. E lá vem o elogio outra vez. Que a ele soa como epitáfio. «És o maior.»
E agora, João? «A minha vida dava um fado, não dava?»

Por Miguel Carvalho publicado in http://adevidacomedia.wordpress.com/

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