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A felicidade da hora

A felicidade da hora

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POR vezes descubro um lugar na cidade onde a beleza é mais perigosa. Gosto de pisar a vertigem, se possível chegar ao delírio íntimo, ou mesmo ao colapso redondo, porque só assim poderei provar a mim próprio que há uma beleza despudorada no Porto, e que esta cidade pode arrebatar tanto ou mais do que Roma, Paris, Viena ou Barcelona. Desço a Rua das Flores e encontro o largo de São Domingos ao rubro num final de tarde de Agosto. Por milagre, encontro um recanto onde beber uma cerveja à sombra. Abro o livro que ando a ler, de forma propositadamente aleatória, mas não consigo paz para o encanto. Há uma alegria alvoraçada nas faces, os gritos das gaivotas cobrem o som rouco de um saxofone e os idiomas descosem-se, sobrepõem-se, enquanto alguns olhares percorrem a felicidade da hora, cobiçam partes de outros corpos e acabam por pousar num pormenor de solidão edificada.

Ao meu lado está uma bela rapariga de calções sentada ao colo de um rapaz. Há mais um casal na mesa deles. São todos muito jovens. Bebem vinho, riem e falam muito alto em espanhol. As suas vozes chegam mesmo a cobrir os gritos das gaivotas. A extrema juventude não lhes deixa espaço para a parcimónia. Tudo é velocidade e fogo. De um momento para o outro, a rapariga que está no colo do rapaz começa a desenhar o que parece ser uma cena de ciúmes. Fala-lhe com uma autoridade sem glória. Prende-lhe com as mãos o rosto. O rapaz é paciente e tenta controlá-la. Mostra alguma vergonha. Pede-lhe para falar mais baixo. Ela fica ainda mais furiosa. A certa altura, ela tenta libertar-se do seu colo, mas ele usa a força de modo dissuasor. De repente, talvez pela forma como ele a agarra, uma mão envolvendo-lhe a cintura, a outra cravada ao cimo da coxa, essa imagem eleva-se, rompe a vulgaridade com que está criada e reconstitui um dos mais altos episódios da arte barroca: O Rapto de Proserpina, de Bernini.

Tudo isto me causa um ligeiro furor, uma vontade indómita de cair nas profundezas da terra com eles, de os acompanhar numa reportagem louca pelos meandros e os castigos do amor forçoso. Mas este Plutão deixa rapidamente escapar a sua Proserpina, que vai sentar-se na cadeira livre, um pouco amuada e chorosa. Depois, ambos descem aos seus infernos privados, o rosto mergulhado no fundo do telemóvel.

SOBRE O AUTOR: André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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