CANÇÕES do Ar e das Coisas Altas de João Pedro Mésseder foi recentemente publicada pela Editoral Caminho. Os textos são ilustrados por Rachel Caiano à semelhança do sucedido com os anteriores: Pequeno Livro das Coisas; Tudo é Sempre Outra Coisa; De Umas Coisas Nascem Outras e Olhos Tropeçando em Nuvens e Outras Coisas. Para o autor é uma forma de, como quem não quer a coisa, ir revelando o Grande Livro das Coisas em fascículos.

Por Paulo Moreira Lopes

Já publicou: Pequeno Livro das Coisas; Tudo é Sempre Outra Coisa; De Umas Coisas Nascem Outras; Olhos Tropeçando em Nuvens e Outras Coisas e, agora, Canções do Ar e das Coisas Altas. Não será esta uma forma de como quem não quer a coisa ir publicando o Grande Livro das Coisas em fascículos?

Acho que pode ser uma boa definição da «coisa», sim.

Quando escreveu os poemas de Canções do Ar e das Coisas Altas estava com os pés assentes no solo ou na terra da imaginação?

Para mim, as raízes da terra da imaginação estão sempre no solo, na «terra dos homens», como diz um título de Saint-Exupéry. Quero dizer: a terra real, incluindo os seus «apêndices» aéreos, bem entendido: nuvens, vento, aves, libelinhas, borboletas, estrelas de papel, balões, os perigosíssimos drones… Espero que os jovens leitores deste livro, e os adultos também, sintam isso. As ilustrações da Rachel Caiano – uma superior artista da imagem que ilustrou os outros quatro livros com «coisas» – aí estão para dar uma decisiva ajuda.

Que outras vertigens se podem sentir além do azul?

Ui, tantas! A vertigem da música, por exemplo, e a da dança. Talvez por isso os poemas de Canções do Ar e das Coisas Altas sejam, ou desejem ser, musicáveis e cantantes.

E há, por exemplo, a vertigem do branco, a vertigem do vermelho. A do negro, também, que deve ser terrível. E, claro, há a vertigem de uns olhos em que outros olhos se perdem. E que podem ser verdes, castanhos, violeta, negros… ou de alguma outra cor vertiginosa. Lembro-me, por exemplo, de, no dia 25 de Abril de 1974, ter sentido uma vertigem de vermelho como nunca voltei a sentir. Creio que era a vertigem da liberdade, junta à vertigem da juventude.

Há três vertigens que nunca experimentei, maleitas de muitos: a vertigem do ouro (ou daquilo que faz as suas vezes), a vertigem do poder, a vertigem de oprimir outros seres humanos.

Não receia que o vento sem freio possa varrer outras coisas além do silêncio dos vales?

Quem me dera que algumas coisas varresse: poluição, lugares-comuns, mentiras mediáticas, ignorância, prepotências, medos, manipulações…

E o «vento cão» não deveria andar com açaime?

Claro que as pobres apanhadoras de lenha, do poema que fala do «vento cão» (um dos meus favoritos), não desejam outra coisa que não seja açaimar o vento. Se tivesse o trabalho delas, às tantas também desejaria.

Eu sei que o vento às vezes, irrita, perturba, violenta. Mas, como escrevia Carlos de Oliveira, e Lopes-Graça musicava, «Não há machado que corte /a raiz ao pensamento, / não há morte para o vento, / não há morte.» Um vento cão com açaime seria coisa bem triste. Por muito que custasse, eu acho que quereria sempre desaçaimá-lo.

De tanto apreciar as nuvens e suas formas não se pode transformar, por momentos, num homem estátua?

Agora que o diz, creio que devo estar atento a esse perigo…

O «ladrão de nuvens» não será o mesmo que rouba estrelas até mais não poder?

Talvez. Quem sabe se não mudará de ramo de actividades? Ladrão de estrelas, de luas, de brisas, de folhas caídas no chão, de seixos da praia, de pedaços de madeira trazidos pelo mar…

Sabe como reparar uma lua quebrada por uma pedra atirada ao lago?

Acho-a tão bonita a quebrar-se e, depois, a voltar ao sítio que declino esse ofício.

Acha instrutivo que as mães se ponham a desconversar com os filhos?

No poema «Conversa», diálogo entre filho e mãe, que é também um dos que prefiro, a aparente desconversa é talvez mais receio, compreensível, de mãe – por amor ao filho. Por falar nisso, além deste poema, que bem pode ser oferecido a uma mãe, já alguém experimentou oferecer-lhe, no Dia da Mãe, esse belo romance de Máximo Gorki, que se intitula A Mãe?

Tem alguma sugestão para transformar a paz, «sonho vagaroso da terra», em realidade?

Ui, tantas! Mas fica esta: a militância, sem hesitações nem tibiezas, nos movimentos pela paz no mundo, pois só estes podem contrariar a vertigem e, sobretudo, os interesses dos senhores da guerra, que são sempre de natureza económico-política (ou alguém pensa que a guerra contra o governo de Assad ou contra o Iémen ou contra a Palestina ocupada ou ainda as ameaças contra o Irão tem outras motivações de fundo?). Há uns tempos um amigo mostrava-me como a distância que o petróleo tem de percorrer entre a Síria e os EUA é precisamente metade da que percorre entre a Arábia Saudita e a América do Norte. Vale como realidade e como reveladora alegoria. Outra sugestão: e se a França, o Reino Unido, os EUA e outros países ditos democráticos deixassem de vender armas aos governos fazedores de guerra? E se deixasse de haver pena de morte nos EUA e na China?

Apraz-me ter publicado esse poema pacifista, a que faz referência na sua pergunta, nas Canções do Ar e das Coisas Altas. Realmente a paz é coisa bem alta.

Em que dicionário se encontram as águas-palavras?

Talvez se encontrem, pelo menos, em três: o Dicionário Marinho, o Dicionário Fluvial e o Dicionário Lacustre. Isto para não falar de um quarto, o Dicionário Pluvial, e de um quinto, o Dicionário das Lágrimas…

Também usa quebra-palavras?

Às vezes uso. Com o quebra-palavras, por exemplo, quebro a horrenda palavra «competitividade». Também gosto de quebrar as expressões «o melhor do mundo» e «o maior».  E todas as palavras inglesas usadas a despropósito por certos portugueses, que ignoram os termos portugueses que as deveriam substituir. E também adorava quebrar os lugares-comuns jornalísticos que já o velho Karl Kraus denunciava.

Até concluir o poema perde muito tempo à procura das palavras certas?

Se perco. Dias, às vezes meses. Outras vezes não.

Nunca teve a tentação de usar palavras ou frases/versos de outros autores para os seus poemas?

Bem, um dos poemas que escrevi com mais gosto, em Canções do Ar e das Coisas Altas, foi «Um livro», que é uma homenagem a Vinicius de Moraes e ao seu poema/canção «A casa». Nesse meu texto, recrio/reutilizo toda uma estrutura, um ritmo e uns motivos poéticos bebidos nesse poeta do Brasil que tanto admiro.

Algum escritor poderá dizer que nunca usou palavras que outros escritores usaram? É impossível. Quanto a frases, versos, expressões, ideias de outros poetas incluídas nos versos próprios, basta pensar em Camões e Petrarca; em Ezra Pound e nos poetas provençais e chineses dos quais o norte-americano usou fragmentos; no Húmus de Raul Brandão e no seu uso/recriação por Herberto Helder. E por aqui me fico, pois os exemplos são inúmeros. Eu mesmo escrevi há muitos anos um poema, intitulado «Colagem», sobre o sul, em que assumidamente montava um texto a partir de fragmentos de Luis Cernuda, Manuel da Fonseca e Carlos de Oliveira. Os ecos de outros autores, das múltiplas leituras nos poemas que um poeta escreve não só são naturais como, frequentemente, são assumidos. Tudo isto faz parte da dinâmica da criação literária e de fenómenos que a teoria da literatura há muito estuda, e aos quais, no quadro da transtextualidade, chama intertextualidade e ainda hipotextualidade e hipertextualidade. Não existe literatura sem intertextualidade.

O que faz das palavras de que não gosta, daquelas que são, por exemplo, mais pesadas (mentira, injustiça, guerra, fome, dor, solidão, morte, etc.), que não elevam o coração humano no ar?

Há palavras de cuja semântica não gosto, mas cuja sonoridade, ou melhor, cuja materialidade me agrada. E por isso às vezes também as uso. Mas não só por isso. A vida é como é, a escrita é como é. O facto de não gostar da semântica dessas palavras – e até por isso – obriga-me a usá-las, a não as ignorar. Até para combater aquilo a que elas se referem. Falar da guerra para lutar contra a guerra; falar da dor para contrariar a dor.

Finalmente, que outras coisas, além das descritas no livro e neste questionário, poderão ser entrevistas no céu desta página?

Tantas… Mas talvez opte pela música. Pois tenho aí um projecto de ver estas Canções do Ar e das Coisas Altas ganharem efectiva forma musical. Vamos a ver. Eu sem música não consigo viver. E gostaria que a música fosse entrevista, ou melhor, entreouvida no céu deste livro. E desta página, claro.

Ver o desafio sobre o Pequeno Livro das Coisas

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here