HÁ na cidade onde nasceu em 1957 e em que vive, o Porto, uma habitação difícil de situar. É a sua própria morada, “antes de mais e depois de tudo”, para nos socorrermos do título da breve mas preciosa antologia que escolheu alguns poemas de “uma obra poética colossal, iniciada em 1974, e que se estende por várias dezenas de livros” (Editora Exclamação, selecção e prefácio de Rui Manuel Amaral, 2020). Regina Guimarães surge-nos associada a essa primitiva imagem do poeta situado na cidade, uma voz retirada mas no centro dos furacões, incómoda, por vocação, face aos interesses dominantes; uma voz sábia, livre e inquieta, serena e provocatória, imbuída de um silêncio que abriga, ecoa e recompõe as falas desencontradas do lugar. Mas nesta austeridade vigilante dificilmente um rótulo lhe cabe, entre trabalhos de dramaturgia com Saguenail, letras para “rock-alternativo”, argumentos cinematográficos, textos críticos, traduções, tudo o mais. Os poemas surgem discretamente publicados, por ordem cronológica, em cadernos atravessados por desenhos, ou então na plataforma virtual “Hélastre”, de livre acesso. Sinal dos tempos, a pandemia e as interdições que sobressaltam a cidade nos dias desta entrevista não permitiram uma conversa ao vivo em sua casa, nesse cenário que sabemos povoado de livros que se confundem com lavores vários, fotografias, a babel doméstica. Aí se escreve: “na boca não cabe a língua / e a voz não cabe no corpo // não escrevo: / salto a pés juntos // e se não vês onde caio / é porque não sobressaio // com o fundo me confundo / à custa de ouvir me traio // não escrevo em página branca”

Talvez pudéssemos começar pelo mais imediato. Como descreveria o seu local de trabalho? É uma ilha, uma cela, um santuário?

Nem ilha, nem cela, nem santuário. Escrevo os meus poemas em qualquer lugar, desde que haja papel e lápis, porque a cabeça é a minha oficina, e a minha página em branco é o tempo. As traduções, as peças de teatro, os textos críticos ou de opinião, os argumentos cinematográficos, etc., trabalho-os sentada a uma secretária (uma velha mesa de escola), de costas para a cama (lugar de descanso) e de frente para o computador do Saguenail, meu companheiro de quase meio século (lugar de exigência).

Há no seu “habitat” de trabalho objectos indispensáveis à sua volta ou é absolutamente supérfluo o que a rodeia no momento da escrita, luz, silêncio, música, ruído?

O ruído humano não me incomoda, desde que não exprima dor ou ódio. O silêncio tem uma densidade e uma variedade tais que por vezes silencia, mas é um prazer estar com, rodeado de, habitado por… silêncio. A música é um texto que entra em competição com o acto de escrever, pelo que só muito raramente escrevo com música como «pano de fundo». Quanto à luz, gosto dela de todas as maneiras, quer ela esteja esplendorosa ou mortiça, mas tenho uma grande fobia relativamente à mistura de luz natural com luz artificial – pelo que me acontece esperar, quase já totalmente às escuras, pela caída da noite para acender o candeeiro.

– E quanto à sua biblioteca? Está mais próxima de uma ideia de “cosmos” ou de “caos”? Como a organiza ou desorganiza? Faz para si sentido a ideia de ter uma biblioteca?

Gosto mais de pensar nela como se fora uma floresta. Mas a verdade é que está globalmente organizada por ordem alfabética. Mas com secções: os livros em português, os livros em francês, os livros em inglês, os livros noutras línguas, os livros de filosofia, os livros de teatro, os livros para crianças, os livros de arte, etc. os policiais… Actualmente, os livros dos amigos estão numa estante colocada na sala de jantar cozinha, porque são mesmo nosso essencial alimento.

Considera-se uma bibliófila? Por que prefere, nas suas publicações, cadernos e, para mais, explicitamente datados?

Não sou bibliófila. Sou filha dum bibliófilo obcecado e amiga de bibliófilos mais ou menos extravagantes. Estou, de certo modo, vacinada contra o culto dos livros raros e caros…

O meu caso deve ser atípico: também não sinto a angústia da página branca, nem preciso de adjuvantes fixos para chocar ovos…

Chamo cadernos a muitos dos meus livros e não escondo a datação dos poemas porque neles publico sem outra ordenação que não cronológica os poemas que escrevi num determinado período. Com o último livro publicado na Hélastre – «Caderno dos Atalhos e dos becos» – cheguei a meados de 2012. Dessa data até ao presente a esmagadoríssima maioria dos meus poemas são ainda inéditos.

Tem uma rotina de escrita, rituais?

Não. Quase me apetece inventá-los para a resposta ser menos decepcionante…

Escrevo quase todos os dias e quase sempre à noite. Esse modus operandi resulta de eu ter tido, durante longos anos, uma vida doméstica muito intensa nas horas diurnas, enquanto os meus três filhos eram pequenos (ainda por cima, estudaram em casa até aos 11 anos).

Mallarmé afirmou um dia a Degas que poemas não se fazem com ideias, mas palavras; de qualquer forma, o que decide o nascimento de um poema: é um processo surdo e lento, há momentos explosivos?

Mallarmé tinha carradas de razão. Acrescente-se a isso que o poeta herda a língua em que escreve, mas não desiste de a reinventar à desmedida do que o habita. Herda toda a sua riqueza e toda a sua miséria. Convive, buscando intimidade, com os muitos falantes que por ela passaram e a moldaram. Há forçosamente a beleza da fricção e a familiaridade problemática na relação entre o poeta e a sua ferramenta – com meandros intermináveis e desejáveis convulsões.

Na eclosão da sua poesia, qual o papel das leituras e das outras artes, em particular a música, as artes plásticas, o teatro, o cinema? As andanças pelo mundo são também importantes?

Como o cineasta Manoel de Oliveira frequente e eficazmente no-lo mostrou, um livro, uma tela, uma peça musical ou dramática, um filme são componentes do mundo subjectivo e objectivo como as árvores, as casas, as nuvens, as luzes, etc. Donde… Quanto às andanças pelo mundo: acho que, no meu caso, jogam mais as andanças que o mundo dá dentro de mim…

O seu percurso biográfico tem como referência fundamental a cidade do Porto. Considera que esta circunstância é determinante para a sua escrita? Sente que existe um “génio do lugar”?

O Porto é a cidade onde nasci. Onde trabalho e vivo. De resto, como diz a canção, a minha pátria é o mundo inteiro. Dentro da cidade, há ruas que são mais «minhas» que outras, porque lá vivi e sonhei aquilo que de mim faz o que sou.

As cidades não são todas iguais, como é óbvio, mas a presente disneylandização e turistificação têm vindo a varrer algumas características do Porto. O «génio do lugar» é substituído por hotéis de charme, lojas griffe, restaurantes e mercearias gourmet, invenção de um pretenso artesanato e folclore local, promoção de uma gastronomia ad hoc slow-food faz de conta, etc… O Porto tem, em muitas zonas da cidade, um ambiente de corredor de aeroporto.

A Regina, que tantas vezes questiona a imagem e o papel tradicionalmente atribuídos à mulher, revê-se mais na palavra “poeta” ou “poetisa”? Poderemos falar de uma escrita feminina?

Quando me dizem poetisa e me falam de escrita feminina, sinto-me na posição dos promotores da «negritude» que arrancavam o termo «negro» à partitura dos insultos para o transformarem em flor na lapela. Uma flor provocatoriamente descomunal, imprópria para lapelas…

Aceita que a sua poesia, com o carácter insubmisso que tantas vezes a marca, possa ser considerada de intervenção?

Não aprecio particularmente que me rotulem. Gosto mais quando se rasgam os rótulos… Mas acho que nunca ninguém etiquetou propriamente a minha escrita de «poesia de intervenção». Na verdade, muito pouca gente escreveu sobre o que escrevo. A excepção sobreveio agora com a publicação, na Exclamação, da antologia de poemas escolhidos pelo Rui Manuel Amaral.

Como concebe o lugar da poesia nestes tempos globalizados, de indústrias culturais e processos impiedosos de gentrificação? Cabe-lhe ainda um papel importante?

Procuro colocar-me o mais longe possível das indústrias culturais e participar o menos possível nos processos de gentrificação. Procuro afastar-me o mais possível do neo-patriotismo e das ondas populistas. Em suma, procuro com a poesia de todos os dias «fazer recuar as fronteiras do possível».

O escrever à mão, o manuscrito, uma espécie de artesanato, são importantes em poesia? E as novas tecnologias, o computador, que lugar ocupam na dinâmica poética?

Eu nunca escrevi à máquina, passei do lápis para o computador.

Percebo pouco de novas tecnologias, mas não há-de ser diferente do que acontece na evolução dos meios em todos os domínios da actividade humana. Ou seja, o modo como as coisas são feitas nunca deixa de fazer parte do que elas são e o que elas são depende do como e com quê são feitas (além do onde, quando, quanto, para quê, para quem…)

Que valor dá ao trabalho de revisão? Quando é que finalmente larga um poema, quando é que sente que ele já pode ir à sua vida?

Tem o hábito de dar a ler os poemas a alguém antes de os publicar ou em esboço? Há algum leitor privilegiado que seja cúmplice do processo de escrita ou é uma tarefa absolutamente solitária? Há um leitor ideal que os seus poemas reclamem?

O meu companheiro Saguenail lê todos os poemas que escrevo antes de qualquer pessoa. A escrita só aparentemente é solitária, porque ela é habitada por desejo de leitores. Era a esse desejo inspirador, que os antigos chamavam musa, acho eu. Esse desejo não os grudava a uma origem, antes os catapultava para um devir.

Como vê a relação da escrita poética com dinâmicas de grupo ou determinados colectivos de vida ou criação?

Tenho praticado a escrita dramática a dois. Com o Saguenail. Tenho trabalhado as canções que escrevo com quem as interpreta. A Ana Deus. Tirando isso, passei pela experiência do «escrever com» na Leitura Furiosa e pela experiência dos jogos de escrita com os meus filhos e no quadro das muitas oficinas de escrita que fui (des)orientando.

Revê-se em alguma família poética? Sente que há afinidades electivas com alguns autores? Venera heróis literários?

Ao ler esta pergunta, lembrei-me da minha grande amiga Eduarda Dionísio que, citando sua mãe, amiúde comenta: «família só a sagrada e na parede pendurada». Afinidades sim, muitas e muito intensas, mas que em nada alteram a solidão…

É necessário divulgar a poesia? Como fazê-lo? Que laços acha que podem ser criados entre ela e o mundo digital, tendo, nomeadamente, em conta a ligação da Regina ao projecto “Hélastre”?

Não me sinto habilitada a dar conselhos acerca disto, ainda menos a desenhar planos quinquenais. A nossa hipótese de trabalho é disponibilizar tudo o que vamos produzindo on line. Criámos um site para esse efeito. Na apresentação que lá introduzimos reza assim:

«Recusando o sistema da propriedade que tudo pretende reger (inclusive o trabalho intelectual), Regina Guimarães e Saguenail decidiram tornar público, a partir deste sítio, tudo quanto de suas obras é passível de ser assim tornado público. (…) A criação deste site obedece a duas preocupações: por um lado, a defesa activa do conceito de domínio público segundo o qual, uma vez acabado, o filme pertence aos seus espectadores, o livro aos seus leitores, etc., por outro, a tentativa de romper a solidão (…)»

Como encara o papel da crítica de poesia? Como convive com ela?

Ela tem convivido pouco frequentemente comigo, mas não me posso queixar.

Como se situa no panorama da poesia portuguesa contemporânea? (A cena literária, mas também, muitas vezes, as cenas literárias…)

Não me situo.

A Regina, entre os seus mil ofícios, é tradutora. Vale a pena traduzir poesia? Como definiria esse exercício: milagre, traição, alquimia, contrafacção?

É uma parte integrante do meu trabalho de escrevente. Uma parte maravilhosa que é tanto mais maravilhosa quanto a tarefa for árdua e desafiante. Traduzir poesia é embriagante, por exemplo.

Quer falar-nos dos projectos de escrita com que se ocupa actualmente?

Tenho em mãos a tradução dum romance do Saguenail e duma antologia de poesia surrealista de expressão francesa. Estou a fazer, a partir da tradução em francês, uma versão portuguesa dum texto de Maiakovski.

A leitura da poesia de certos autores contribui para o seu bem-estar, torna-se-lhe um processo vital?

Muitas vezes torna-se vital justamente por não contribuir para o meu bem-estar.

Como se reflecte a sua necessidade de ler e escrever poesia?

São rajadas. Há dias de vendaval e dias de zéfiro.

Quando sentiu que a sua vida passaria pela literatura e pela poesia?

Percebi isso, confusamente, quando ainda era criança. Note-se que o contexto familiar foi imensamente propício a essa percepção de mim mesma e à maneira como me projectei no tempo.

Valeu a pena esta opção pela palavra? Alguma vez se imaginou fora do mundo das palavras?

Não é assunto que obedeça a cálculo, que decorra dum saber estratega. Quando bordo, por exemplo, coloco-me fora do mundo das palavras, mas elas crescem em meu redor, como ervas enlouquecidas, à velocidade da luz.

Local de trabalho de Regina Guimarães

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