PAULO José Borges é professor de português e poeta. Publicou O meu primeiro livro de poesia (2017) e Um ócio todo estendido (2019). Nestas duas obras encontramos, com alguma frequência, frases do tipo interrogativo, às quais, por mais que nos esforcemos, é difícil responder com plausibilidade. Melhor será, por isso, questionar o próprio autor a fim de nos auxiliar a desvendar o sentido das suas perplexidades. Tal tarefa, como verão infra, nem sempre é conseguida. É que ao poeta nem tudo lembra.

A memória é a ligação sem fios à bondade seja ela de quem for?
Quem se lembra do que dissemos e de quem somos, mesmo longe no tempo e na distância, é alguém bondoso, seja como for.

Às vezes precisamos ir ao lado esquerdo da estrada?
Especialmente na Inglaterra. Mas se formos um camião TIR, com um lastro de passados na cauda, suponho que seja inevitável ir ao lado esquerdo para fazer manobras de recondução.

As bibliotecas, afinal, são de papel ou de babel?
Jorge Luis Borges, que muito via de olhos fechados, foi diretor da Biblioteca Nacional Argentina. Foi um mestre da língua impressa e da língua falada. Uma torre de Babel com farol no topo. (Foi ele que me baralhou o verso: escreveu o conto «Biblioteca de Babel»)

Fazer silêncio é um bom conselho?
Talvez sim e talvez não. Não se faz silêncio é o silêncio que nos faz.

Quem vier atrás de si fica fica fica mesmo?
Por vezes andamos divertidos a brincar às escondidinhas, e quando damos conta já fomos apanhados.

Já fugiu entrelinhas?
É o drama da minha vida. É sem querer.

Diz que beija muito ao longe. Quer dizer que não sofre de miopia?
Dizem que os amputados sentem (e doem-se com) o que lhe amputaram. Beijos amputados não precisam de ser vistos.

Os seus olhos não lhe mentem?
Mentir mentem. Mas só quando fixam miragens fixamente.

Depois de cada passo à bebé costuma olhar para trás?
Olho demasiado para trás. Não o faço por mal nem bem.

Às tantas isto é tudo um grande oxímoro?
Sim, isto é tudo um silêncio expressivo como diz a Infopédia ou como eu disse acima.

A cegueira é voltar à infância num quarto escuro?
Quando não vejo, lembro-me do desconforto que era estar num quarto escuro, sobretudo numa casa que não era a minha. Era estar descalço, imaginando um chão de cacos de vidro. Detesto não ver.

Considera-se um criminoso por desejar o furto proibido?
Se eu for mesmo rápido, furto infrações de segundo.

Absente muito?
Às vezes absinto-me, outras aubsento-me. Gostaria de estar a sós comigo no mesmo lugar à mesma hora. Hei de conseguir agendar isso.

Fingir amor é devassá-lo?
Como não?!

Quanto pesa o amor?
É sustentável quando é mesmo amor. Jugo leve. “É querer estar preso por vontade;/é servir a quem vence, o vencedor”, como diz o soneto de Camões.

Aqui não há nada para ver?
Não há nada para ver quando nos assaltam como assaltaram Lionardo no Canto IX: “Ó formusura indigna de aspereza, /(…)/Espera um corpo de quem levas a alma.”

O tempo tudo arrasa infrações de segundo?
O tempo é um ladrão da pior espécie. Mas dentro de mim não mando eu. Continuo a ter 25 anos, 30 no máximo. Quem não me olha com atenção equivoca-se. Quer isto dizer, concomitantemente, que cada vez mais me solidarizo com senhoras que dizem que não fazem anos há anos. Compreendo-as perfeitamente. É a mais pura das verdades.

É possível a bicicleta secar a roupa estacionada?
Sim, desde que se tenha colocado em lugar visível o ticket da Empark.

A dor
mece?
Às vezes embala que é uma maravilha.

Quando é que nos conta aquela história muito boa que tinha para nos contar?
Nem tudo lembra.

Alguma vez tropeçou num poema intumescido?
Sim, mas só reparo quando chego a casa.

Um dia todos verão?
Um dia não haverá estações. Nem as da via sacra.

É do tipo interrogativo?
Já fui mais. Agora já não interrogo tanto, questiono.

Faz muitas parábolas ineficazes?
Claro. Não me obrigue a fazer hipérboles loquazes.

Continua a não se lembrar de quase nada?
Qual era a pergunta?

Tem dias em que lhe apetece viver como nos filmes?
Depende dos filmes e de com quem contracenaria. Mas continuo a gostar muito do neo-realismo italiano.

Não se queimam os vinis que põe à lareira?
Sim, é possível e o incenso que daí resultasse não seria muito saudável. Diria que há canções que ainda queimam, longe ou perto da lareira.

Neste tempo de confinamento já tomou a vacina contra a solidão?
Todos os anos a tomo. Mas Darwin explica: a solidão é criativa. Não há imunização totalmente eficaz.

Quando está em ócio todo estendido os poemas saem-lhe reclinados?
Aprecio observar o ócio abandonado nos outros. O problema não é ceder ao ócio, é ceder à preguiça.

Roídos de inveja, gostaríamos de saber como era ou é essa tal de Felicidade?
Não me lembro bem. A minha irmã é que me lembrou que ela tinha existido. Lembro-me é da Liberdade. Era grande e vistosa (e a sua filha ainda mais) e, apesar disso, chamavam-lhe Liberdadinha.

Agora a derradeira pergunta: é verdade que a sua vida dava um livro?
Provavelmente, mas de poemas com pouca rima.

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