UMA das palavras-chaves nesses tempos de pandemia é “paciência”. Sim, ficar em casa, dependendo da companhia ou do grau de solidão, pode ser uma tortura; mas temos de estar conscientes de que a vida a que estávamos acostumados, para o bem ou para o mal, ACABOU! E dificilmente terá volta.

Assim, o momento pede cautela e sensatez ― o que inclui seguirmos à risca as recomendações feitas pelas autoridades de saúde. E a economia? ― outros indagarão. Afinal de contas, argumenta-se que essa história de “ficar em casa” é conselho de quem não tem de ir à luta para pôr a comida na mesa. E não tiro totalmente a razão de quem assim argumenta, pois para os provedores de família (e falo isso por experiência própria) é realmente de tirar o sono planejar formas de sustento nesses tempos sombrios de pandemia. Só que não devemos confundir as coisas; uma vez que os conselhos de “ficar em casa” são fundamentais até mesmo para que a economia volte aos eixos o mais rápido possível. E tais recomendações tornam-se ainda mais pertinentes quando constatamos que muitas pessoas têm se aglomerado por motivos inúteis: por exemplo, em praias, festas e cultos religiosos. E aqui o leitor há de perdoar-me a excessiva sinceridade, mas é fato que todos os eventos que citei acima não são nada imprescindíveis. Em outras palavras: ninguém morrerá por deixar de ir a uma festa, à praia ou a um templo. Pelo contrário, comparecer, nesses casos, é que constitui o perigo.

E o que é ainda mais preocupante é que essa falta de paciência ― e sua consequente irresponsabilidade nesses tempos de pandemia ― tem sido testemunhada, em menor ou maior grau, em todas as partes do mundo. Até o Japão zen-budista, conhecido pela “arte da paciência”, tem chutado o balde desde que foi anunciado o fim do estado de emergência no país. É o que ocorre, por exemplo, com muitos jovens, que têm ido às festas em Shinjuku (uma espécie de “bairro das baladas” em Tóquio), e não raramente… sem máscaras! ― Como observei, recentemente, ao ir dar aulas em um local próximo. Resultado da brincadeira: os casos voltaram a aumentar na capital japonesa. Já se fala até na possibilidade de “um novo estado de emergência” ― o que significaria, claro, mais um golpe na economia local.

Não é de hoje que os erros humanos são repetidos de modo cíclico, parecendo até que temos um desejo mórbido de exumar passados problemáticos. Ocorre que, no caso do coronavírus, o problema ainda está, literalmente, “no ar”. De modo que ou tomamos juízo, ou tudo vai para o beleléu.

Sim, ficar em casa pode ser uma situação incômoda e até enlouquecedora. Ainda assim, penso que é bem mais confortável que a outra alternativa de confinamento: sob sete palmos de terra.

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em concursos literários no Brasil e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013) e “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018), “Gotas frias de suor” (2018) e “Centelhas” (romance, 2019).  Foi o vencedor do 13º Concurso de Microcontos do Festival de Cine TerrorMolins (Espanha, 2019). É também colunista do JORNAL EM DIA, no Brasil: http://www.jornalemdia.com.br/categorias.php?p=16172

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