CERTA vez, no Japão, uma aluna abordou-me após o término da aula para indagar de qual parte do Brasil eu procedia. Quando respondi que nascera e crescera no Amazonas, ela primeiro deu uma risadinha. E, quando viu que eu permanecera sério, a estudante, em um misto de susto e vergonha, perguntou em seguida: “É verdade?”. Foi quando lhe expliquei, pacientemente, que o Brasil, tal qual os Estados Unidos, era dividido geograficamente em estados federais, e que, sendo assim, havia, no norte do país, um estado denominado “Amazonas”. E, por fim, acrescentei que eu nascera em uma cidade denominada “Manaus” ― uma cidade, aliás, com um bom desenvolvimento econômico, fiz questão de frisar.

Tive de dar essa lição de geografia porque certamente a moça devia estar pensando: “Então estou aprendendo português com alguém que veio lá do meio da floresta? Com o Tarzan?! Com o Mogli?!”. Porque provavelmente, antes, a todo brasileiro que ela perguntava a respeito das origens, as respostas eram sempre as mesmas: ou Rio, ou São Paulo ― ainda que, em muitos casos, procedessem de cidades do interior desses estados, e apenas estivessem tentando passar a imagem de que vieram das capitais. De modo que um brasileiro que se assumia amazonense devia ir mesmo contra todas as suas expectativas.

Aliás, essa vergonha de revelar as origens parece não ser exclusivamente um fenômeno tupiniquim. Todo inglês que conheço veio de Londres. Todo peruano, de Lima. E os que são um pouco mais sinceros dizem: “vim de uma cidade próximo à capital”.

Na verdade, até compreendo o temor de muitos imigrantes: os japoneses tendem a possuir uma visão estereotipada do resto do mundo, associando sempre um país a sua cidade mais famosa. É inglês, deve ser de Londres. É brasileiro, deve ser do Rio. São Paulo, aliás, só é conhecido aqui graças à presença dos muitos descendentes de japoneses oriundos do referido estado. Mas a preferência local é mesmo Rio, futebol e samba…

Eu, pessoalmente, não tenho problemas de assumir minhas origens, seja onde for. E isso mesmo antes de vir para o Japão. Sim, fui alvo, inúmeras vezes, no sul e sudeste do Brasil, de “piadinhas” a respeito de minhas origens indígenas. E foi exatamente para evitar as tais piadinhas que alguns primos, morando em algum estado “sulista”, chegaram mesmo ao ponto de tentar copiar o sotaque local: para não serem discriminados. O que eu achava, além de triste, degradante. Pois eu ficava pensando: como é possível que o preconceito e a ignorância de alguns levem outros a negar a própria identidade? Afinal de contas, o Amazonas ― ora, bolas ― é uma terra repleta de riquezas: naturais e humanas. Terra de talentos como Thiago de Mello, Milton Hatoum e ― permitam-me aqui uma dose de humor ― de Edweine Loureiro! Ora, diabos, por que temos de estar envergonhados?

Temos mais é que festejar a nossa origem indígena. E é por isso que bato no peito e repito: sim, sou baré! E também um bom “Sensei”.

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020): https://kondo.lojaintegrada.com.br/cronicas-de-um-latino-sol-nascente-edweine-loureiro

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