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Uma temporada no inferno

Uma temporada no inferno

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AGOSTO é já Setembro por entre a voluptuosidade das mãos. É impossível dissociar este mês da poesia mais acerada de Eugénio de Andrade, da prosa barroca e requintada de Francisco Umbral, de certos títulos de Nabokov (Fogo Pálido, Ada ou Ardor, Riso na Escuridão). Porque Agosto deixa a cidade numa inércia incendiada; porque agora o tempo degenera num impasse brutal; porque o amor existe em Agosto à sombra de uma esquina ou de um milagre, e os olhares estão quebrados e as paisagens exaustas.

Porque Agosto pode ser fatal. Porque já não somos tão belos como dantes, e esse é o escândalo. Agosto é uma miragem.

Estamos numa espécie de idade equivocada. O partido único do sol e do mar, a força da terra, todos os elementos nos empurram para uma antiga convicção, querem que voltemos a ser como eles, jovens e sinceros, altos e enigmáticos. E nós aceitamos o convite e deixamos que o corpo vagueie, rebente, naufrague. Deixamos que os fantasmas dos Verões passados venham pousar nas nossas lembranças. Deixamos que seja Agosto a conduzir as nossas nostalgias breves na direcção de um poente ensanguentado. Deixamos de ter a idade das convenções.

“Elle est retrouvée”, dizia Rimbaud, a propósito desse colapso do tempo que alguns chamam de Eternidade. Mas Rimbaud não era um poeta, era um vidente. Rimbaud cultivou a adolescência até ao paroxismo e soube, como ninguém, reter as dádivas de Agosto dentro de casa. E quando sentiu que o sol lhe faltava, partiu para latitudes mais quentes, amou mulheres absolutamente modernas e prosaicas, prosseguiu com uma peculiar tradição poética que conciliava o comércio instantâneo da pureza com o tráfico de armas. E morreu com os olhos postos num poente ensanguentado. Sem idade. Sem convenções.

Por André Domingues

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