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Uma obscura lucidez no rosto

Uma obscura lucidez no rosto

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À MEDIDA que o Verão se apaga, o Porto recupera uma obscura lucidez no rosto. De resto, já não tenho grandes expectativas em relação à rentrée. Sou um leitor caprichoso, intransigente, e persigo, por isso, o Livro Total, a célebre obsessão de Mallarmé, um livro que me deixe a meio caminho entre a perplexidade, o êxtase e a clarividência. A maioria dos meus amigos leitores nem se atreve a pronunciar os nomes de certos escritores que costumo evocar com assombro, e a vida é demasiado curta para ficar à espera da tradução repentina da obra de alguém, que talvez não tenha sequer existência.

Há no entanto autores, autores reais, autores com uma obra feroz, necessária e evidente, que se aproximam desse vértice. Mas continuam fora do mundo e do tempo porque ninguém os conhece. Cărtărescu, por exemplo, romeno com uma obscura lucidez no rosto, que descobri graças à minha presunçosa mania de ler em castelhano e pensar na língua da infelicidade, que é a única que se traduz simultaneamente a si própria.

Estou a ler Nostalgia, de Mircea Cărtărescu, um conjunto de relatos longos, esquivos e profundos, magnificamente editado pela Impedimenta, uma das editoras espanholas que mais tem feito para aliviar a minha falta de fé. Cărtărescu não é um autor qualquer. Está na fila do Nobel, apesar de ser ainda relativamente jovem(!) (Bucareste, 1956). Tem uma obra consolidada, entre contos, novelas, romances e aluviões. A sua prosa é prodigiosa e barroca como o Porto quando a luz passa a ser incerta. Ignoro se o escritor já visitou a cidade, mas acredito nos efeitos da dádiva sobre o reconhecimento.

Então, porque é que aqui ninguém conhece Cărtărescu? E se tivéssemos nós, pobres leitores, caprichosos e intransigentes, uma palavra a dizer sobre a próxima rentrée?

Por André Domingues

1 COMENTÁRIO

  1. Non lin nada de Cărtărescu, e busquei no catálogo da Biblioteca da nosa Universidade e non hai nada :-(. Fareime con algún dos seus libros, non o coñecía. Obrigada, André.

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