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Ulisses

Ulisses

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LEMBRAM-SE certamente do Ulisses, o homem que escrevia poemas instantâneos, impressões nocturnas, cortantes transparências, palavras que ficavam presas ao segredo do papel como animais famintos, na alta resolução da noite e do amor, sob as luzes trémulas da praça da Ribeira, anos 90, fizesse calor, frio, chuva, nevoeiro, a meio da noite lá aparecia o Ulisses, um homem pequeno e turvo, um homem que parecia prescindir de rosto na escuridão austera, que se aproximava em silêncio das mesas, e em silêncio se mantinha à espera do veneno, do instante lívido, da primeira sílaba, olhando de soslaio como um retratista obscuro olha desviando a cabeça do cavalete, para ver através de nós, por dentro de nós, pelas quebras do tempo, e depois desse silêncio todo, dessa vigilância descontínua, desatava a escrever o relâmpago e a peste até ao fim, numa caligrafia frágil e célere, numa espécie de transe, numa ânsia de dedos decididos, e uma vez terminado o poema, deixava o papel enrolado como um presságio em cima da mesa, em plena combustão, na declarada autonomia das coisas breves e longínquas, como um recém-nascido abandonado à porta de uma igreja, implorando-nos vagamente a sua adopção e a consequente moeda de troca comovida, que muitos apenas davam a custo por fraca caridade sem gesto.

Eu cheguei a ter vários poemas do Ulisses, que acabaram todos por desaparecer nos confins da minha carteira de adolescente, entre números de telefone apagados, senhas de autocarro e outros cartões amolecidos. Mas aos dezassete ou aos dezoito anos ninguém é suficientemente sério para perfilhar os poemas de ninguém, e mesmo mais tarde poucos são aqueles que compreendem a premente miséria da poesia, como dizia Rilke e repetia Eugénio tantas vezes, talvez porque nunca tenham visto Ulisses, e se o viram não lhe leram os versos, talvez porque os seus poemas prescindiam de rosto também.

SOBRE O AUTOR:
André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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