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Setembro

Setembro

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SETEMBRO é o mês mais cruel. O Outono promete apagar tudo o que o Verão acendeu. Não conheço dialéctica ou didáctica mais triste. Lembro o belíssimo verso de Carl Sandburg, a propósito do sempre inesperado movimento desta estação: “I cried over beautiful things knowing no beautiful thing lasts”. Reconhecemos, mas choramos ainda. Reconhecemos o tremendo impacto das folhas que caem no chão sem aviso, a ténue e violenta separação das temperaturas, a fuga insólita do sol para o sul; reconhecemos que Setembro é uma imensa cerimónia de despedida, uma breve ameaça soprada ao ouvido, a antecâmara para a mais pequena duração, um súbito desânimo da luz. Reconhecemos. Mas choramos ainda. Porque nenhuma coisa bela permanece, é certo, mas também porque a cidade será irremediavelmente contaminada neste processo e mesmo os seus mais inextinguíveis monumentos e edifícios não saberão como resistir. Receamos a vida. O Outono apodera-se da cidade como do nosso coração. Saturno devorando o seu filho. Tem sido assim, sempre, desde que Verlaine, outro enorme poeta do tempo perdido, escreveu: “Il pleure dans mon coeur / comme il pleut sur la ville”.

Setembro. Mais ou menos langorosos, melancólicos ou incertos, os gestos enfraquecem no seu limite. Setembro é um jardim cheio de graça e de prodígios, uma paisagem extensível e despida que o vento arrasta, desmorona e finaliza num habitado poema, um golpe de calor que sobe por entre as cores fatigadas do sentido e rebenta contra o novo léxico do céu.

Do Marquês a São Lázaro, de Arca D’Água à Corujeira, do Passeio Alegre à Cordoaria, podemos assistir aos inúmeros momentos deste raro striptease que Setembro nos propícia, tão provisório como o destino, tão imanente como o desejo, para chorarmos mais ainda, por dentro, que é onde a chuva e o sol finalmente se reconhecem.

Texto de André Domingues e fotografia de J. Paulo Coutinho

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