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Savall no Salão Árabe

Savall no Salão Árabe

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A RIBEIRA tem algo de tesouro a céu aberto, de baú atafulhado de jóias, pedras mais ou menos preciosas, uma infinidade de esquinas, pérolas e igrejas, clarabóias, torres, becos, ruelas, palácios e resplendores que, no conjunto, configuram uma visão de riqueza intocada. Algumas dessas jóias encerram em si outras e ainda mais ferozes preciosidades. É o caso do Palácio da Bolsa, um dos mais belos trunfos arquitectónicos da cidade, que guarda aquela que é, por ventura, a peça mais valiosa e deslumbrante: o Salão Árabe.

O preenchimento decorativo nesta divisão é total. Contra o chamado horror vacui, ou medo do vazio, por todo o lado o fulgor e o luxo do estuque e das madeiras remetem para o imaginário de Alhambra, para o próprio sentido de tesouro ou riqueza intocada, por antonomásia, e aqui, o efeito de mise en abyme é ainda mais notável: os detalhes reproduzem-se vertiginosamente, originando novos detalhes, as formas mais indecifráveis aprisionam dentro de si novas claridades, e a sensação de que o mundo oculta sempre um reflexo de si mesmo no seu interior, uma faceta um pouco mais minuciosa da realidade, pode precipitar-nos infinitamente para um abismo de beleza e de júbilo.

Quando, muito recentemente, assisti nesse mesmo Salão a um concerto tão íntimo quanto impressionante de Jordi Savall, senti este fenómeno de encaixe e reflexão levado ao extremo. O poder encantatório da obra do músico catalão e a sua mundividência desassombrada abriram uma espécie de vórtice temporal dentro do espírito daquele lugar, religando ritmos, melodias e paisagens, reforçando o rosto comum entre tradições aparentemente tão díspares, e resgatando antigas canções que, mais do que ecoar a sua procedência distante, reclamavam uma consanguinidade e um valor vital partilhado por todos.

Savall é também um apuradíssimo descobridor de tesouros, um arqueólogo do imaterial e um vidente retrospectivo. A certa altura, no calor da liturgia, senti cessar a fronteira que divide a realidade da representação. Cada elemento do público vibrava como um antiquíssimo instrumento de cordas, a memória do mundo dilatou-se e eu sou capaz de jurar que cheguei à verdadeira raiz da riqueza intocada, à última jóia, ao derradeiro tesouro, ao rosto dos rostos.

SOBRE O AUTOR:
André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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