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Rua da Alegria

Rua da Alegria

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SEMPRE me intrigou o nome daquela rua, a facilidade com que um nome tão célere e tão breve cabia numa rua tão apagada e comprida, onde putas e travestis armadilhavam a escuridão e as esquinas e ali permaneciam na sombra até ao amanhecer, todas as noites terrestres, uma rua que parecia não ter fim ou princípio e que ainda hoje paira numa espécie de limbo ou de reconhecível esquecimento, de aceitação líquida, de pudor incandescente, de sonho secreto da líbido. Uma rua onde aprendi a ser feliz, a fabricar a minha pele.

Éramos todos muito jovens e não havia lei. “On n’est pas sérieux, quand on a dix-sept ans”, diz um verso de Rimbaud, e nós sem sabermos verso algum de cor nunca fomos tão sérios e tão despidos. Iniciamo-nos ali. O bar chamava-se Santa Sede e ficava precisamente nessa rua, pouco depois das insones “torres do Lima”, próximo dos Combatentes. Era uma garagem apenas. Uma garagem preparada para ser vista e vivida como um templo. Houve ali muita alegria. Vigílias eléctricas. As minhas torpes incursões como vocalista numa banda com o mais arrogante nome de sempre. Laços de fraternidade etílica. Grandes planos de lábios e olhos a arderem.

Estávamos ali todos os fins de semana para morrermos por algo ou por alguém, momentaneamente, bêbados de absinto e alegria, como os poetas franceses malditos que desconhecíamos, mas que cuidávamos já com algum incógnito apreço. Estávamos ali para dissiparmos o excesso. Para disputarmos a nossa sede. Para perdermos a nossa aura por completo. Para sermos absolutamente modernos e, no fundo, ocupar a obscura alegria da rua com o rasto da nossa juventude suspensa.

Estávamos ali. E ainda lá estamos, certamente, porque o passado que esplende não morre tão depressa. E saber agora o quanto fomos mais alegres do que felizes dentro daquela garagem imensa como a febre. Mais precoces do que nítidos. Mais humanos do que deuses. Numa rua imperfeitamente infinita, afogados num corpo qualquer, talvez a foder o nosso destino ou a foder com o destino de alguém, impedindo talvez que nos tivéssemos tornado melhores pessoas, génios de alguma raça ou galáxia mais leve ou apenas adolescentes repentinos, nós fomos capazes de suportar a mais violenta alegria, a máxima voltagem da selva. Por tudo isso, eu agora sinto-me feliz. Por saber que naquela altura fomos todos pequenos monstros de desejo, caprichosos e satisfeitos, um pouco parvos e suicidas também, o povo mais belo do planeta.

SOBRE O AUTOR: André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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