O PORTO é uma cidade sombria. Não que seja uma cidade triste e cinzenta, como durante muito tempo alguns quiseram que ela fosse, mas porque a sua realidade (a sua matéria visível) produz uma elevada quantidade de sombra, graças, em parte, à forma como a luz nela incide e nos seus tesouros evidentes.

Sabemos ainda muito pouco acerca das sombras e do mundo que elas projectam e presidem. Desde Platão, passando por Magritte e Stanislaw Lem, só para citar alguns exemplos, muitos foram os que se debruçaram sobre a outra natureza das coisas, recordando-nos que as sombras são ilusões, torpes simulacros da realidade, inimigos cruciais da razão e da clarividência, mas também formas espectrais reveladoras, um duplicado performativo daquilo que existe no mundo declarado dos sólidos e das consistências.

Tal como as palavras, as sombras são, pois, uma representação nem sempre fiel da realidade que as origina. Mas não é só a posição do sol (ou de qualquer outra fonte de luz) que determina a maior ou menor fidelidade de uma sombra à sua matriz. A partir de certo momento, as sombras ganham uma preciosa autonomia. E criam um mundo pleno de significação alternativa e inédita.

São quatro e meia da tarde de um dos últimos dias de Março de 2015. Estou sentado na célebre esplanada do Guindalense F.C.. Acabo de descobrir a verdadeira alma da ponte D. Luís, por entre a sua terrível sombra despenhada no rio.

A ponte deixou de ser ponte e passou a ser uma lira.

SOBRE O AUTOR: André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208).

Publicado originalmente em 1 de Junho de 2015

1 COMENTÁRIO

  1. Amigo, é exatamente nesse lado sombreado, não sombrio, que reside o encanto único da cidade do Porto. Essa penumbra, junta C/ os habituais nevoeiros e a imponência dos granitos sólidos e ancestrais, contrastam agora C/a modernidade de todo visível e vivivel que faz desta cidade uma das mais belas do mundo. Lisboa, tb muito bela, tem uma luz especial quiçá pela reflexão do grande espelho de água que é o Tejo. A luz e a sombra tem ambas belezas próprias , até porque não existem uma sem a outra.

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