AO projectar luz sobre a glória e a miséria da nudez humana, Egon Schiele tentou redimi-la da sua carga mais negra e libertar o corpo dos seus gestos curtos, premeditados e vazios. Schiele pintou corpos em estado líquido, por vezes até liquefeitos, atravessados pela amargura, despojados de amor, presos na teia do desejo, a um tempo delicados e grotescos, mas sempre fiéis à sua natureza, e por isso indiferentes perante a crítica e a culpa. Schiele pintou a catedral que é o corpo humano, mais ou menos atingido pela ruína, pela descrença, pela fome ou pelo descrédito. Schiele pintou uma verdade maldita. O clarão da dignidade que arrasta toda a nudez destituída e que prevalece sempre sobre os códigos estreitos da vil decência. No seu tempo, foi condenado pela moral burguesa e a sua obra considerada pornográfica. Cem anos depois, a história repete-se.

Para comemorar o centenário da sua morte, Viena decidiu organizar recentemente uma exposição, com algumas obras do pintor espalhadas pelos mais diversos sítios da cidade. A campanha teve o seu êxito e chegou a outras cidades europeias, até que veio a censura, como um fantasma insatisfeito. Sob o manto do puritanismo mais hipócrita e, este sim, verdadeiramente sórdido e indecente, algumas cidades da Alemanha e do Reino Unido quiseram impedir a circulação das obras, acusando-as de pornográficas e obscenas. O mundo noticiou, houve um pequeno alarido em volta, mas não passou disso.

Custa a acreditar numa civilização que nega a sua própria arte, encobre a sua natureza e reprova os seus instintos. As grandes cidades da Europa e do mundo inteiro estão cheias de gente que saiu directamente das telas de Schiele. São presenças impertinentes que assomam por vezes atrás do perfume pindérico das avenidas. Lembro-me que há uns anos, parado num semáforo no final da rua de Camões, vi um homem e uma mulher, sem esperança e sem pressas, a fazerem amor à porta de uma loja icónica de tapetes, onde, em primeiro plano, por detrás dos vidros, uma cama intacta e imensa criava uma poderosa tensão irónica e ainda mais acentuava a beleza que por toda a cena resplandecia. Havia o máximo de decoro naqueles corpos, tapados por farrapos e papelão. E apesar de não se mostrarem despidos, a sua nudez era cósmica, como só a nudez das estrelas pode ser.

SOBRE O AUTOR: André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208).

Publicado originalmente em 4 de Março de 2018

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