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O Verão dos poetas

O Verão dos poetas

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JULHO. Os dias são velozes e esplêndidos. O sol está mais próximo da Terra. Há uma espécie de opulência em tudo o que vejo, toco e sinto. Pergunto-me: por que é que Platão expulsou os poetas da cidade? Provavelmente porque fazia muito calor na República. E o calor traz sempre um certo tipo de desordem atrás de si, não é? E os poetas, mesmo os mais nebulosos poetas, geram e transportam calor, desordem, o Verão irracional de todos os sentidos. E Platão não podia aceitar um Estado justo e em harmonia com tão atrozes cultivadores do efémero.

O Porto não é uma cidade ideal, felizmente. Os poetas pululam por aí. Vejo-os na longa vigília da noite, em mangas de camisa, a suar a sua desdita, tratando de evocar as paisagens interiores, os ares condicionados do espírito, sempre condecorados por uma lenta aversão às praias, ao tumulto, ao desporto e ao bronzeado perfeito. Os poetas portuenses sofrem a misteriosa condição de serem filhos da emoção e do apelo (como, de resto, todos os outros), mas, ao mesmo tempo, não sabem lidar muito bem com o seu corpo, caído em desuso numa cela metafísica, sob as chuvas perspicazes e contínuas do abandono e do aborrecimento.

O Porto é uma cidade romântica, terrivelmente romântica, romântica a um ponto quase indiscernível. Por isso, os poetas do Porto contrariam e vão contrariar sempre o anseio de Cesariny (releia-se o poema “Todos por um”), e nunca, mas nunca, deixarão “uma nesgazinha de cemitério florido” para os poetas de Lisboa poderem morrer dignamente. Assim, é natural que os poetas de Lisboa tenham mesmo de recorrer à vala comum ou a outro espaço ainda menos arejado do underground para realizar os seus póstumos convívios. Até porque em Lisboa, como se sabe, o Verão é bem mais irracional e pós-moderno.

Por André Domingues

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