A FOME estilizada do artista, essa quase cruel obstinação em fazer nascer, raramente é reconhecida. A cidade é tudo o que de maior e de mais explícito acontece: um conjunto desigual de casas mascaradas ao amanhecer, uma rua congestionada de gente dividida entre a necessidade e o sentido, uma longa fila de automóveis rente a um regresso sem fim, e, sob uma chuva verídica e sucinta, a ânsia fundamentada dos monumentos. Nunca a taciturna luz das oficinas. Nunca a interioridade soterrada dos poetas. Nunca a gestação difícil dos que se obstinam em fazer nascer, recolhidos nos seus imensos cubículos, que nunca se avistam da generosidade lacónica dos mapas ou dos céus.

Quem tiver a sorte de conhecer alguns desses antros de discórdia e de desejo, sítios por onde a cidade circula em toda a sua intensidade, fúria e ruína, pode sentir-se feliz.

Lembro-me da primeira vez que visitei o ateliê de Emerenciano. Restos de um sono profundo e destruído pareciam escorrer de um tempo impossível; o chão bombardeado de tinta; uma justa confusão de elementos (e de sentimentos): cavaletes, pinceis, esquissos; o inacabamento de tudo, no seu maior requinte, pairava como um grande fantasma sobre a expectativa pálida de um qualquer acontecimento que não sobrevinha de tanto sobrevir.

A cidade também estava ali. Não a cidade tangível das práticas e dos habituais desconcertos, das velocidades perceptíveis dos hábitos e das estatísticas, das obras de luz e de pedra, da invariabilidade das coisas que existem. Ali estava a cidade por vir. A cidade irrepresentável e hostil que o artista se obstinava em fazer nascer. Pude então distinguir, entre sinais ilegíveis e símbolos, gestos e espirais que nenhuma gramática podia consentir, alguns revólveres apontados para o infinito que escondem dentro de si todas as cidades e todos os acontecimentos.

Texto de André Domingues e fotografia de J. Paulo Coutinho

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