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Enquanto a luz se asfixia

Enquanto a luz se asfixia

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VELAM os últimos entardeceres da Terra. São jovens, proféticos e bonitos. Vêm de todos os lados e falam todas as línguas. Preferem o cinema iniludível do crepúsculo, a pequena dor absoluta da luz que se perde, o ar livre à sala hermética, e a profundidade da vida às vidas impostas sobre uma tela. Assistem ao extermínio. São a mais honesta forma de transparência. Vão chegando aos poucos, devagar, talvez até um pouco solenes, e sentam-se na relva. Formam pequenos círculos abertos ao conhecimento dos outros, ou então ensaiam uma promessa exclusiva, dois amantes que perseguem uma forma sábia de morrer, que se despem de todos os atritos e ruídos. Seguem o caminho das Virtudes, com um copo de cerveja na mão, uma alegria difusa no olhar, a lenta convicção do destino. Estão sobre o tempo exacto das suas vidas, mas é na morte do sol que se compadecem.

Eu leio um livro de poemas de Valente e observo. Observo a multidão incansável no seu afã de redefinir o vazio. Pode-se morrer de Primavera? Pode-se viver para sempre de adolescência compulsiva? Observo a formação de um beijo, a enunciação de um mito. Vejo um rapaz e uma rapariga próximos de mim que se destacam do resto pela natureza quase inesgotável dos seus perfis. A luz atravessa-lhes o rosto, funde-lhes os lábios, chega até mim. E eu leio um poema de Valente: “Quién eres tú, quién soy, / donde terminan, dime, las fronteras / y en qué extremo / de tu respiración o tu materia / no me respiro dentro de tu aliento”.

São provavelmente estrangeiros. O Porto mostra-lhes a porta do paraíso. A ponte, ao fundo, é já só um incêndio, um arco quebrado pela força que os instantes adquirem quando rebentam na boca do tempo. É quase certo que nenhum deles tenha alguma vez lido ou sequer ouvido falar de Valente, muito menos destes versos, tão dóceis e propícios. Mas posso assegurar que, neste momento, estão os dois muito mais conscientes deles do que eu.

SOBRE O AUTOR:
André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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