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Da escuridão dos teatros

Da escuridão dos teatros

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RECORDO, com prazer, a terrível escuridão dos teatros. Antes mesmo de começar a peça, quando todas as luzes se apagam, durante aqueles segundos infindáveis que precedem as aparências, no meio daquele mundo informulado, cheio de ideias e promessas, cheio de fé e de vontade, a vida adquire um sentido tal, uma densidade, uma insanidade, uma voltagem, uma alegria imóvel e leve, que dificilmente encontramos noutro lugar. Gera-se então uma espécie de plenitude na sala, de fluxo unívoco e incessante, centenas de cabeças voltadas para algo que já está a acontecer um pouco aquém e além das palavras e das imagens, da realidade, numa tentativa de reconstrução privada e vital do significado de tudo e de todos. Ali sentados, às escuras, lado a lado com o inefável estrangeiro, com a máxima semelhança e disparidade do outro como cúmplice das nossas verdades, qualquer um pode ver a nudez da sua própria história brilhar. De repente, as histórias que irrompem de cada rosto na escuridão podem cruzar-se. Esta mera possibilidade põe em causa, no último instante, antes que uma luz se acenda, antes que uma voz seja entoada, a própria pertinência do espectáculo.

Claro que ninguém pagaria um bilhete para ficar uma hora e meia na escuridão, sem outro estímulo que não o da sua consciência desocupada. Ainda há um grande preconceito contra o vazio, sempre existiu o horror vacui, essa necessidade premente de preencher o que nos parece privado de sentido ou significado. No fundo, as pessoas precisam de ver, ouvir ou sentir alguém que, de um outro ponto do espaço, lhes conte algo universal. Quem conta exerce ainda uma profunda pressão sobre a realidade. E mesmo numa altura em que se fala tanto de imersividade, de interactividade e de conectividade, continuamos com medo do escuro, com medo de que a nossa vida caia suavemente no maior espectáculo do mundo, o mais imersivo e o mais indecifrável.

SOBRE O AUTOR:
André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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