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Beijar uma pantera

Beijar uma pantera

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O CALOR vem, rastejante, pelo ar, roubar-nos o equilíbrio, a proporção, o traço melancólico e a noite amável. As noites parecem bombas prestes a rebentar. Sente-se a invasão, a barbárie, um golpe de caprichosa juventude nos corpos que passam, um sufoco generalizado nas casas, um vulto de lume que irrompe das pedras, do asfalto, dos rostos tenebrosos, suados, da pele exposta, uma espécie de irracionalidade velada, de vocação animal.

O Verão animaliza-nos e os poetas traduzem isso em paixão. Há um poema de Bukowski em que uma mulher é inteiramente animalizada. Não tenho uma boa relação com a prosa de Bukowski. Acho-a aviltantemente obscena e de uma secura condenada a dois ou três tópicos por onde assoma um odor a extermínio e a ressaca. Não consigo perceber o discurso do niilismo descarnado, ao ponto de não perpassar sequer por ele um efeito de fé, uma vontade, ainda que patética e desusada, de o superar com o artifício das palavras e a beleza do mundo. Sempre estive mais próximo de escritores amargos que desenvolveram uma forma de ecoar num festim maldito, num insólito tropel de imagens e metáforas, através de uma prosa mais elegante e mais empática, o barbarismo das suas e das nossas vidas.

Mas há certos poemas de Bukowski onde este meu argumento se perde para sempre. Há poemas que atingem uma honestidade radical, luminosa e indispensável, única para traduzir o ímpeto e a força da experiência da carne e da cadência sinuosa dos corpos que dançam no gume do mundo. E este é um deles. O poema chama-se: “Have you ever kissed a panther?” e é um exemplo sumptuoso do que tenho estado a falar. Este poema sabe a que sabe o Verão. Sente-se, ao lê-lo, as altas temperaturas evoluírem pelas paredes de um quarto, e a mulher-pantera de que fala Bukowski nos versos não é um estereótipo qualquer, é a própria encarnação do Verão, a respiração entrecortada do desejo, obscuro e objectificável, como diria Buñuel, porque o amor real é bárbaro e nocturno e os poemas que falam de amor devem ser invasivos e sufocantes como o sol das duas da tarde, de tal forma irracional, impiedoso e inescrutável sobre os nossos ombros, porque só o peso de um animal como este nos dá a luz de que precisamos para combater a fera dos dias leves e cinzentos.

SOBRE O AUTOR: André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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