A VANTAGEM de amarmos mais a imagem de uma coisa do que a coisa propriamente dita é que as imagens podem exorbitar o que representam e, consequentemente, também o nosso amor. Quando a percepção que temos de uma cidade, por exemplo, se inunda de motivações ocultas, inéditas, desmesuradas, quando, para além da cidade bruta, declarada, consensual, começamos a receber a notícia de uma outra cidade, de outras cidades, supostas, sobrepostas, contaminadas pelo apelo crucial de uma memória, de um sonho, de uma fábula, partes de cidades longínquas, imaginárias, subtis, reclamam uma presença real no enquadramento do sonho.

De repente, a cidade que julgamos conhecer reaparece, transfigurada, fundida numa imensa encruzilhada de significantes, planos, impossibilidades e combinações. Pedaços de outras cidades são enxertados, miragens acendem-se a cada esquina, ruas e edifícios importados das inúmeras analogias do mundo prolongam uma perspectiva conhecida, amplificando-a subitamente, dentro e fora do nosso amor.

A geminação estética e espiritual das cidades é um fenómeno muito engenhoso. Olhemos para o Porto. Quem não reconhece nesta cidade um certo temperamento da Paris oitocentista, uma discreta mas sincera atmosfera de Boulevard Saint-Michel na Avenida Rodrigues de Freitas; quem nunca viu o fantasma da praça Venceslau, em Praga, a pairar sobre a nossa Avenida dos Aliados num auspicioso dia de Inverno; ou ainda o reflexo caprichoso do Danúbio no Douro, com a similaridade que as pontes propiciam, aqui como em Budapeste.

O Porto é uma cidade desmedida. E por isso temos de ter a coragem e a honestidade de a amar de forma exorbitante também.

SOBRE O AUTOR: André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208).

Publicado originalmente em 1 de Julho de 2015

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