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Aprender a ser árvore

Aprender a ser árvore

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TAMBÉM eu admiro a imobilidade perfeita, a frondosa imobilidade das árvores que recai sobre a irregularidade do mundo, num silêncio tenaz e geométrico, como uma espada secreta e propagada. Também eu quero aprender metodicamente a ser árvore, mas onde está essa pequena praça propícia, Eugénio?, o Porto é enorme, é maior do que a noite, e eu não sei voar, nem sequer achar um refúgio na dolorosa e tensa luminosidade da tarde.

Também eu procuro parecer-me com a terra obscura do meu próprio rosto, mas onde se despenha o meu reflexo entre tantas vertigens e miragens?

Quando te conheci tinhas já consolidado o esplendor que os teus versos exibem agora na imensa universidade do natural. Eras já um método expandido na inequívoca dignidade de uma árvore. Perguntaste que poetas mais admirava e eu formulei uma frase, o breve esboço de uma linhagem precária, algures com o centro em Baudelaire, e as ramagens tão estreitas e tão altas nas teimosas periferias do surrealismo mais premonitório e voraz: Apollinaire, Rimbaud, Verlaine, Breton, todos esses anjos franceses sem aura, portadores de uma certa desobediência doutrinária, filhos do acaso, da cidade e do caos. Não estava à espera que me oferecesses nada em troca, depois de ter lido alguns dos teus versos para uma plateia de adolescentes desfocados e não–verbais, muito menos um nome que o tempo aproximou apaixonadamente do meu âmbito e do meu espanto: René Char. Na altura, fiquei apenas com a impressão de ter uma dívida impagável com a eternidade. Mas agora que penso melhor nisso, talvez esse nome não fosse senão uma semente dissimulada, um núcleo visionário de infinitas possibilidades vegetais, um indício de um verso que eu deveria metodicamente cultivar.

Texto de André Domingues e fotografia de J. Paulo Coutinho

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