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Agramonte

Agramonte

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su cuerpo dejará no su cuidado;
serán ceniza, mas tendrá sentido;
polvo serán, mas polvo enamorado. 

Francisco de Quevedo

HÁ um gato que dorme sob a guarda de um anjo, ou talvez seja um poeta disfarçado, nunca se sabe, olha para mim com os olhos incendiados, com esse silêncio terrivelmente loquaz de que só os gatos e os poetas são capazes, e de repente já não sei se é o anjo que protege o gato ou o contrário, sinto-me sempre um pouco intimidado diante de estátuas e animais, com a própria volúpia da paisagem, figuras de pedra, tributos de ferro e mármore, tudo à minha volta me pede uma espécie de identificação, como se estivesse retido na fronteira de um país estrangeiro onde, mais cedo ou mais tarde, terei por força de voltar, já com dupla nacionalidade e a papelada toda em ordem.

Fujo do campo visual do gato e do anjo, mas há uma pergunta que fica sem resposta: o que é que eu faço às cinco horas da tarde, num esplêndido dia de Verão, no cemitério de Agramonte? Vim tentar compreender a morte. Avanço por uma álea densa de estátuas de gente famosa, artistas, médicos, ilustres presidentes de câmara. Às vezes, vejo a morte como uma prima donna temperamental. Ouço o seu canto sonâmbulo, asséptico e libidinoso. Desejo, em segredo, possuí-la num descampado, e obrigá-la a comer o pó em que nos torna e tornará a todos. Sou um desesperado e um sonhador.

Quando era pequeno, gostava de ficar nas últimas filas do cinema só para ver dançar as partículas de pó que ficavam expostas pela luz do projector. As partículas de pó formavam uma lembrança agitada, para a qual eu ainda não tinha nome. A única coisa que eu sabia era que enquanto aquelas partículas dançassem, enquanto aquelas partículas estivessem suspensas, encantadas pelo seu próprio movimento imponderável e disforme, haveria amor. Era uma apaixonada intuição de criança, que ainda hoje me conforta.

Mais tarde, reencontrei num soneto de Quevedo a imagem desse “pó enamorado”, fruto da inevitabilidade contrafeita de existir e do quanto se opõe a turbulência do amor ao repouso exacto da morte. Os grandes mestres são assim. O seu amor progride numa constância para além da morte. Por isso, antes de regressar ao país dos vivos, passei à porta do Manoel de Oliveira e agradeci-lhe por nos ter dado mais tempo ao movimento das partículas, por ter mantido sempre suspenso o pó irrequieto do amor.

SOBRE O AUTOR: André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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