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Abaixo de zero

Abaixo de zero

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FALA-SE pouco do frio porque o frio não tem voz, não atinge a espessura do mundo como uma verdade inelutável, não chega a gerar acontecimento, passa, como uma catástrofe delicada, através das frinchas dos dias, pela incerta sequência do tempo, porque para nós, que temos um frio demasiado domesticado, o frio não se vê, mal se sente, há sempre perto alguma coisa que o impede de se instalar, de causar uma dor intolerável, um efeito físico atroz. Por isso, fala-se do frio todos os dias de forma esquemática, para quebrar o gelo numa paragem de autocarro, da mesma forma que se podia falar do calor ou do trânsito, de sexo ou de uma constipação. A cidade está definitivamente protegida contra o frio, e mesmo nos sítios mais inóspitos do planeta, onde o gelo reina, geométrico e desumano, o frio é tolerado.

Em Oymyakon, uma pequena aldeia localizada a leste da Sibéria, onde o termómetro já chegou este Inverno abaixo dos 60º negativos, os habitantes vieram para a rua fotografar as suas benevolentes pestanas geladas, mostrar ao mundo como convivem bem com a sua imaculada desgraça, como é possível, ainda assim, festejar o Carnaval involuntário que o frio extremo lhes impõe como condição para sobreviverem.

No fundo, o frio perdeu prestígio e relevância, de tão literal e suportável que se tornou. E se se ouve falar pouco do frio literal, ainda menos se fala do frio figurado, do frio desfigurado, do frio transfigurado, do frio centrípeto e pulsátil, carnal, que rompe a pequena religião dos Invernos temperados da Europa e dos espaços sobreaquecidos da nossa civilização, tão silenciosa e sonhadora. Do frio das ruas inertes e reais e das pessoas dispersas que o vestem, por obrigação, debaixo de viadutos, próximas de uma igreja ou às portas prematuras das lojas caras de calçado ou de roupa. Do frio que regressa, por dentro e fora, todos os dias e todas as noites, até no auge do Verão, como uma certeza fantasmagórica da realidade. Do frio que deveria contaminar o índice de tolerância das cidades. Do verdadeiro frio autoritário. Do frio que não admite nenhum tipo de ironia, festejo ou disfarce. Do frio venenoso.

SOBRE O AUTOR:
André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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