HOJE saí de casa muito cedo, completamente convicto de que iria encontrar, algures na baixa do Porto, a famosa Rua dos Douradores, espaço primordial do inclassificável e glorioso “Livro do Desassossego”. Toda a gente sabe que a Rua dos Douradores fica na baixa de Lisboa, a dois passos do Rossio, e não noutra parte qualquer. No entanto, sempre acreditei que aquela rua não podia ter apenas uma existência fixa, subsumida entre a Rua dos Fanqueiros e a Rua da Prata, e, portanto, haveria de possuir inúmeras réplicas instaladas noutros centros históricos de outras cidades do mundo. O Porto não seria excepção.

Munido de um mapa pormenorizado daquela zona de Lisboa e movido pela extraordinária cadência do desassossego, parti em busca daquela que, segundo Bernardo Soares, seria a única rua que representaria na perfeição a confluência da arte e da vida verdadeiras.

Como precisava de um ponto de partida, estabeleci uma analogia, de resto bastante clara e conveniente, entre a Praça do Rossio e a Praça da Liberdade. No mapa de Lisboa, a Rua dos Douradores ficava a sudeste do Rossio. À falta de uma melhor correspondência entre as configurações tão díspares das duas cidades, não tive outro remédio senão atravessar a Praça Almeida Garrett, subir a Avenida D. Afonso Henriques, continuar pela Avenida Vímara Peres e entrar no tabuleiro superior da ponte D. Luís.

Quando cheguei a meio da ponte compreendi “todo o sentido das coisas” e “a solução de todos os enigmas”, de que falava Bernardo Soares no Livro. A julgar pelas elegantes e prateadas grades de ferro, eu devia estar na Rua da Prata. Ao longe, por entre a névoa, divisava perfeitamente a Rua dos Fanqueiros. Se os meus cálculos estivessem correctos, a Rua dos Douradores ficaria apenas alguns metros à minha frente, alta, silenciosa e inquieta, como um longo poema, a pairar sobre o rio.

Texto de André Domingues e fotografia de J. Paulo Coutinho

Publicado originalmente em 4 de Janeiro de 2016

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