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A flor do desespero

A flor do desespero

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O HOMEM que conduzia o táxi trazia uma tristeza lenta e submersa. Nunca desviou os olhos da estrada durante todo o trajecto, a não ser para olhar pelos espelhos, com medo talvez que a cidade atrás de nós desabasse ou se extinguisse. A sua voz tremia de forma quase imperceptível. A noite estava bastante quente, as janelas do carro todas abertas, e antes que eu dissesse alguma coisa o homem esgrimiu dois ou três argumentos contra o ar condicionado, crucificando essa invenção maldita, atalho perfeito para resfriados e vírus, e finalmente confessou-me que era um claustrofóbico impenitente. Se fosse a minha casa, disse-me, com a maior das naturalidades, ia ver como eu deixo sempre as janelas abertas, seja Verão ou Inverno. E como sou fumador, é da maneira que o fumo sai.

Imaginei um apartamento pequeno num quinto andar de uma artéria sinuosa e barulhenta, cortinas pálidas a esvoaçar ao vento, as paredes desbotadas com alguns quadros pendurados e objectos sem valor (e quase sem presença) pousados numa mesa de madeira negra. Depois imaginei a noite espessa lá fora e as marcas do frio de uma vida. Um cheiro persistente a tabaco velho, 70m2 banhados por uma espécie de luz ambígua, de baço arrependimento. Este homem é um desesperado, pensei. Havia uma pequena aguadilha nos seus olhos, águas paradas, não eram lágrimas sequer. E, à tona dessas águas, despontava a já débil flor do desespero.

Começa quase sempre por uma confissão, por um despertar, por um despudor. Um olhar errático. Um nódulo na voz. Uma estridência no tempo. Depois, o rasgão alastra-se. E as pessoas expõem a sua dor, a mais dura nudez. E fuma muito?, perguntei, já o táxi tinha parado ao cimo da Rua de Ceuta. Dois maços por dia. Dois maços por dia é muito, respondi. O taxista não comentou. Limitou-se a receber o dinheiro. Depois fui eu que me arrependi de lhe ter feito essa triste advertência.

SOBRE O AUTOR: André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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