Para o Manuel António Pina

CONHECI o poeta em 2003. Estava a terminar a minha licenciatura e ele foi uma das fontes a que recorri para humanizar o território (na altura, como agora, tão aliciante quanto controverso) da Crítica Literária na Imprensa, insólito objecto de estudo da minha monografia. Marcámos um encontro no café Orfeuzinho, na Boavista. Levei um pequeno gravador e meia dúzia de perguntas ingénuas, mas durante os quarenta ou cinquenta minutos que estivemos frente a frente numa nebulosa mesa ao fundo do café, falámos de Borges e da tradição cabalística, do enigma do tempo, de anedotas burlescas, de destinos poéticos e cruéis, ou seja, falámos um pouco de tudo menos daquilo que me tinha levado ali, até ele. Entretanto, ficou combinado que lhe enviaria o questionário por e-mail e, pouco depois, ele respondeu-me com a prontidão e a perspicácia que o caracterizavam sempre.

Ficámos quase dez anos sem nos vermos. Pelo caminho tive a ousadia de lhe escrever, pedindo-lhe, a medo, que lesse e comentasse um pequeno conto meu (e, mais tarde, um exercício poético, um pouco hermético e mal resolvido) e ele teve a gentileza e generosidade de me responder com mais gentileza e generosidade ainda. Eu continuava a acreditar cada vez mais na literatura, mas precisava de uma voz avançada e limpa que legitimasse a minha forma de a conceber. Ainda é assim. Será assim sempre. Enquanto houver mestres e discípulos.

Em Abril de 2012, liguei-lhe e combinamos um café. Encontramo-nos novamente na zona da Boavista, desta vez no Convívio. Até o nome dos cafés parecia obedecer a uma força hierárquica misteriosa e progressiva. A intimidade pode ser fulgurante entre leitores verdadeiros.

Falámos de tudo, outra vez. Até que, no meio de tudo, o poeta destacou um título: O abc da leitura, de Ezra Pound. Como que reagindo ao meu total desconhecimento do livro, o poeta pediu que o acompanhasse à livraria mais próxima – a urgência tinha-se tornado numa parte do rito – e eu obedeci. Entrámos na Leitura do Bom Sucesso. O livro, em português, estava esgotadíssimo. Mas havia um exemplar, numa versão em castelhano, que ele mandou vir para mo oferecer no próximo café.

Não houve mais nenhum café. Alguns meses depois, mal soube do que tinha acontecido, a primeira coisa que fiz foi passar pela Leitura para resgatar o meu livro. Tudo o resto é literatura, ou então silêncio de imensa gratidão e ausência.

Por André Domingues

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