CHARLES Baudelaire escreveu “Spleen de Paris”, Francisco Umbral escreveu “Spleen de Madrid” e eu gostaria imenso de descrever o spleen do Porto, essa melancolia intangível que assola a cidade nestes dolorosos dias de Abril, aproveitando a lenta combustão do céu e os extraordinários aguaceiros. Gostaria de saber de onde vem tanto triunfo de lágrimas, tanta tristeza alada, tanto assassinato celeste. Gostaria sobretudo de captar o exacto momento em que a beleza e melancolia se abraçam para elevar a cidade a género literário, tão cosmopolita e provinciano como o próprio tempo em que vivemos.

Umbral – seguindo de perto os passos de Baudelaire – acreditava que Madrid, mais do que uma cidade, era uma desculpa para escrever. No meio do trânsito, no frio nauseante de uma esquina, por entre promessas de luz que atravessam mapas e constelações, segredos e tardes de domingo, há sempre um prodígio qualquer à nossa espera. Uma musa que dignifica e corrige a terrível constatação do mesmo, um semáforo que perde de repente a lucidez, um aparatoso acidente entre o instante e a brisa. Segundo a Lei de Littlewood, é estatisticamente possível encontrar um milagre uma vez a cada 35 dias.

Da ociosa teoria da flânerie ao hasard objectif dos surrealistas, tudo é modernidade ainda, oportunidade e coincidência, e os poetas (mesmo em prosa) não podiam sobreviver muito tempo enclausurados no relativismo absolutista de uma cidade caída na mera mecânica do desprezo. A totalidade e as utopias continuam acesas por aí. Há gente que daria uma fortuna para voltar a ser mais ingénua. Cada fragmento, cada gota de chuva que cai agora com tanta exactidão e desdém, contém em si um deus libérrimo, que se auto-exclui no momento em que a chuva e o céu cinzento deixarem de ter uma conotação negativa e Maio entrar pela cidade e pelo mundo de repente, apesar de continuar a ser Abril para sempre dentro de mim.

SOBRE O AUTOR: André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016) e de poesia “Tempestade das mãos” (Debout sur l’Oeuf, 208).

Publicado originalmente em 3 de Maio de 2016

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