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Remédios Literários

Remédios Literários

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ESPECIALMENTE as que vêm das emoções. Descobriram-no Ella Berthoud e Susan Elderkin com esta forma de terapia que começaram por experimentar em si próprias. Chamaram-lhe biblioterapia, ciência muito pouco exata mas que tem mostrado resultados, veja-se o sucesso do livro em que a resumiram, agora editado em português. Para uma lista infindável de problemas, outras tantas soluções. Insónias, crises de identidade, depressões, pelos vistos tudo se cura com David Foster Wallace, Tosltoi, Saramago, Kafka, Garcia Márquez ou Camus

Insónia

Livro do Desassossego
De Fernando Pessoa

A frequência e a gravidade das insónias de um indivíduo poderão medir-se pela quantidade de livros que acumula junto à cabeceira da cama. O melhor para se pegar em horas inquietas como essas, defendem as autoras, é um clássico de Fernando Pessoa. Diário de Bernardo Soares que trabaha como ajudante de guarda-livros na Rua dos Douradores, emprego “tão exigente como uma sesta”, é um “livro sem enredo que apesar de não o fazer propriamente dormir”_vai conseguir deixá-lo “naquele estado oesado de pré-sono” sempre necessário para se chegar ao desejado sono profundo.

Dependência da Internet

A Cidade e as Serras
De Eça de Queirós

Porque a utilização excessiva da internet pode levar a uma dependência que raramente traz felicidade, não há nada melhor do que um livro sobre felicidade para o apaziguar se for este o seu caso (coisa cada vez mais provável nos dias que correm). Que foi o que encontraram as autoras nesta obra de Eça de Queirós, mais uma das muitas referências à literatura portuguesa deste compêndio de soluções literárias para (quase) todas as maleitas. “Um livro sobre a felicidade” em que também uma personagem, Jacinto, sofre com a sua dependência da “civilização urbana”.

Ficar sem palavras

Lolita
De Vladimir Nabokov

A falta de palavras pode ter várias causas. Uma delas pode ser um choque. Nesse caso, o conselho é esperar que ele passe, que elas voltarão. Outros casos há em que a falha se dá de forma prolongada, por outros motivos que podem prender-se com questões como por exemplo falta de eloquência. Aí, ninguém melhor do que HH (Humbert Humbert), narrador de “Lolita” que entre outros atributos poderá ser descrito como estando “mais longe desta aflição que outra pessoa qualquer”. “O que o separa, de língua atada e olhos ansiosos, de HH é que este criminoso loquaz tem um sentido inabalável do seu direito a falar. Vá buscar esse direito a HH”, aconselham. Mas só mesmo esse direito.

Medo da morte

Ruído Branco
De Don DeLillo

Problema que afetará mais uns do que outros, já se sabe, mas que quando ganha a dimensão de problema pode ser o cabo dos trabalhos. “Acontece-lhe acordar a meio da noite com suores frios, preso à cama pela certeza terrível de que há uma eternidade de não-existência à sua espera?” OK, o diagnóstico é assustador, já percebemos, portanto vamos rapidamente à solução, que Berthoud e Elderkin dizem estar ou em “Ruído Branco”, de Don DeLillo, ou um pouco mais a Sul, nos “Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez. Livros que de qualquer modo são recomendáveis a qualquer um, o medo de morrer é acessório na verdade.

Depressão em geral

A Insustentável Leveza do Ser
De Milan Kundera 

Coisas em geral são o tipo de tópico que interessa, especialmente se o assunto for depressão. One size fits all como costuma dizer-se, porque a depressão é “uma escala móvel”, da zona moderada “onde muitos de nós já molhámos os pés” e onde podem incluir-se aquelas alturas em que tudo nos parece fadado a correr mal para sempre, àquela da “nuvem negra” que aparece sem aviso e sem razão e não sai, como a chuva da semana passada. Altura em que um romance nos pode fazer sentir pior se não for o certo, ou melhor. “A Insustentável Leveza do Ser” de Kundera parece ser uma boa opção para perceber que não é a única pessoa infeliz à face da terra.

Arrogância

Orgulho e Preconceito
De Jane Austen

Talvez até aqui ainda não lhe tivesse ocorrido que talvez haja neste “Remédios Literários” uma componente de lista de ideias de presentes para oferecer a aos amigos. Ou talvez já, a cada um os seus defeitos – e os seus amigos. Mas vamos ao que interessa. Escrevem as autoras que “a arrogância é um dos maiores crimes da literatura”, coisa que se sabe desde que Jane Austen escreveu “Orgulho e Preconceito”, onde a heroína Elizabeth Bennet ensina quem quiser aprender a pôr um arrongante no seu lugar. Ficou célebre a frase: “Estou perfeitamente convencida de que Mr Darcy não tem nenhum defeito.”

Demasiado sexo

Mulheres
Charles Bukowski

Há a solução para a falta e a solução para o excesso, achámos por bem dar-lhe esta, só porque Bukowski merece. Em precisando as mulheres de uma certa desmotivação, nada melhor do que passarem os olhos pelas páginas de “Mulheres” (ou de praticamente qualquer um dos livros de Bukowski), em que o narrador, Henry Chinaski, um cinquentão cujas semelhanças biográficas com o autor não são mesmo coincidência, nos conduz pelas suas experiências. “Uma alma e uma beleza crua e vulgar que irá fascinar algumas pessoas, em particular se tiver ouvido para a prosa rítmica, mas que vai certamente fazer com que queira deixar a sua lingerie sexy na gaveta.” Foi certamente o que sentiram as autoras. Mas há gostos para tudo.

Ella Berthoud. “Sem dúvida que a biblioterapia funciona”

Ella Berthoud foi uma das autoras convidadas para a edição deste ano do LeV – Literatura em Viagem, em Matosinhos. Aproveitámos para nos encontrarmos com ela para uma conversa sobre biblioterapia, agora que o livro foi lançado em Portugal.

Em 2008 lançaram o serviço de biblioterapia na School of Life em Londres, que foi o que esteve na origem deste livro. Como é que isso aconteceu?

Eu e a minha amiga Susan conhecemo-nos em Cambridge, como estudantes, e costumávamos dar romances uma à outra quando nos sentíamos em baixo ou mal. Sempre que tínhamos um problema deixávamos livros junto à porta uma da outra à noite e começámos a pensar que isso era mesmo um bom remédio e que devíamos experimentar ser médicas dos livros nós próprias. Ao longo dos anos fomos dando livros aos nossos amigos e à nossa família, para os ajudar nos momentos difíceis. A Susan tornou-se romancista, eu tornei-me artista e durante este tempo fomos amadurecendo esta ideia. Depois, em 2007 conhecemos o Alain de Botton, em Londres, que gostou mesmo desta ideia que tínhamos tido de ser médicas de livros e nos perguntou por que não tentávamos lançar um verdadeiro serviço que as pessoas pudessem consultar. Hoje o que acontece é que quando as pessoas têm um problema ou algo que as preocupa prescrevemos-lhes seis livros para curar os seus problemas. Começámos a fazer isso e 2008 na School of Life numa consulta que funcionava como terapia, que se tornou muito popular.

Que feedback tiveram?

As pessoas gostaram muito, tínhamos muita gente a ir, outras pessoas que começaram a recorrer ao serviço por Skype ou por telefone. Hoje damos consultas a pessoas por todo o mundo, em Nova Iorque, em Singapura, na Austrália, provavelmente mais de metade das nossas consultas são à distância.

Depois disso, como surgiu o livro?

Bom, ao fim de quatro ou cinco anos de consultas com clientes fomos percebendo que certos livros funcionavam particularmente bem, uns melhor do que outros, e começámos a tomar notas sobre quais eram os melhores e a formar uma espécie de livraria na nossa biblioteca com os melhores livros para determinado tipo de problema, o que nos deu obviamente a ideia para fazer um livro. Fizemos então uma lista de todos os elementos o que achávamos que podia ser curado por um romance – emocionais, situações ou questões físicas, como ter uma perna partida – pegámos na lista de livros e começámos a ligá-los.

E pode dizer-se que este seja um método com resultados? Funciona?

Com questões emocionais sem dúvida que funciona, mas não temos provas científicas. Isso é muito difícil de provar. As pessoas são todas tão diferentes na forma como reagem aos livros e é tudo tão intangível que não conseguimos ter uma base científica, mas os nossos clientes regressam com um feedback positivo.

Ia perguntar-lhe se as pessoas costumam voltar para novas consultas. Como é o processo?

Nós encorajamos as pessoas a darem-nos um feedback, a dizerem-nos se resultou. Normalmente enviam-nos emails a dizer como correu, às vezes marcam novas consultas para novos livros. Muitas pessoas voltam mas nem todas, o mais comum é fazerem biblioterapia e depois comprarem uma sessão para oferecer a alguém.

Quando alguém regressa é com novos problemas?

Normalmente é diferente. Tínhamos por exemplo um homem em Nova Iorque que conhecemos quando estava prestes a ser pai e estava muito preocupado com a mudança. Depois o problema passou a ser o ser pai em si, andar cansado, ter mudado de emprego, estar a repensar a relação com a mulher, etc. Normalmente muda, mas há outra pessoa das Bermudas que vem sempre com o mesmo problema de querer mudar de trabalho e não saber bem como fazê-lo. Agora vou encontrar-me com ele pessoalmente pela primeira vez, em Londres. Vai ser interessante.

Publicado in jornal i

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