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Artigos com a tag: Inma Doval

Inma Doval (1966)
[20 Jul 2017 | 1 comentário | ]
Inma Doval (1966)

Habitar o silencio / dos froitos dourados deitados na mesa / a morte anunciada de Isolda

De passagem pela Corunha
[10 Jun 2017 | Comentar | ]
De passagem pela Corunha

NO mês passado, tive a felicidade de apresentar o meu livro, “Dramas de Companhia”, em Espanha. Recebi o convite de Inma Doval, artista plástica galega, bibliotecária na Faculdade de Educação da Universidade da Corunha, que, entre outras coisas, luta acerrimamente para que o lado artesanal e a transcendência da leitura regressem, num mundo onde o impacto alienante da imagem e da banalidade se tornou, ele próprio, o centro do gosto e da ambição.
Ao contrário do urbanismo destroçado de Vigo, ou da monumentalidade barroca e triste de Santiago, a cidade da …

Jogo
[19 Fev 2017 | Comentar | ]
Jogo

O FUTEBOL é um jogo viril. Uma espécie de râguebi sem violência. Sorriu, sem perceber muito bem o que lhe queria dizer o homem do cachecol às riscas. A bola, nessa tarde, andava pelo ar: não havia, segundo a erudita linguagem dos comentadores, “fio de jogo coerente”. E, espanto de todos, a partida foi suspensa, declinava o sol manso sobre as árvores. O árbitro escreveu no relatório: “O capitalismo inventou o futebol para nos agrilhoar”. Na juventude, o homem do cachecol às riscas praticou boxe amador.
Texto de Francisco Duarte Mangas publicado originalmente …

As árvores do bosque
[20 Nov 2016 | Comentar | ]
As árvores do bosque

CANSADO de humanidade, ganhou pelo. Abjurou a marcha bípede, subiu às árvores do bosque: comeu bagas, frutos silvestres e enxotou a fome dos pássaros. A família pôs anúncios nos jornais, dava alvíssaras a quem a informasse do paradeiro do homem. E ninguém, ninguém até hoje descobriu o professor de pré-história, com horário incompleto.
Texto de Francisco Duarte Mangas publicado originalmente in O homem do saco de cabedal, Campo das Letras, maio de 2000, página 21, com ilustração de Inma Doval.

Sem título por Inma Doval Porto
[4 Nov 2016 | Comentar | ]
Sem título por  Inma Doval Porto

Por Inma Doval Porto em exposição na Agitarte – Exposição de Arte Solidária, entre 15 de outubro até 30 de novembro, das 9:30-12:30 | 13:45-18:30, promovida pela Associação cultural e recreativa Agitar:
Rua Hernâni Torres, 197 | 4200-320 Porto
224087957 | 967652619 | universidadesenior@agitar.pt

Os homens
[18 Set 2016 | Comentar | ]
Os homens

NA FEIRA vende-se o gado, romãs, peles de raposa, enxadas. As gargantas, secas, pedem vinho: hipoteca-se, então, a alma. E nos olhos refulge antiquíssima valentia. O homem bebeu, muito – é dia de feira. Sem ousar transpor a porta da taberna, a mulher avisa-o: Figurão, lembra-te dos filhos que tens em casa. Os outros afixam no olhar: se fosse comigo! Sai, manso. Espanca a mulher. Os outros mastigam os gritos. Pedem nova rodada, em tigelas lavadas.
Texto de Francisco Duarte Mangas publicado originalmente in O homem do saco de cabedal, Campo das Letras, maio …

O mundo da gravura de Juan Sebastián Carnero
[10 Ago 2016 | Comentar | ]
O mundo da gravura de Juan Sebastián Carnero

JUAN Sebastián Carnero nasceu em Argentina, em Buenos Aires, e ali é onde mora actualmente, mas Sebastián também é um bocadinho galego, pois seu bisavó era da nossa terra. É professor titular de gravado na Escola de Belas Artes Lola Mora de Buenos Aires, lecciona pintura e gravado na sua oficina Cromática e em escolas de primária e secundária, é ilustrador, ex-librista e desenhador. Obteve o título de Professor Nacional de gravado na Universidad de Lomas (Zamora) e é licenciado em artes visuais pelo instituto Nacional de Arte (UNA). Trabalhou …

Paixão das rãs
[6 Jul 2016 | Comentar | ]
Paixão das rãs

FUMAVA cigarros com pensamentos ecológicos. O jovem casado chamou a mãe. Mãe, mãe, venha ver o menino a andar. Nessa tarde não pescou nada. Nada. Existe algo de misterioso nos peixes. É a lua nova, explicou-lhe o pescador do lado. Não pescou nada. Nada. Regressou ao povo, cacifo cheio de urzes floridas – e nos ouvidos a enamorada sinfonia das rãs.
Texto de Francisco Duarte Mangas publicado originalmente in O homem do saco de cabedal, Campo das Letras, maio de 2000, página 18, com ilustração de Inma Doval.

Homem sem terra
[13 Abr 2016 | Comentar | ]
Homem sem terra

O BOI era o símbolo da valentia da nossa terra. O boi do povo!, explica o homem que tivera de fugir da sua aldeia, porque a barragem tudo engoliu: casa, sonhos, campos, odores, melancolia. Chegávamos o nosso boi ao boi do povo vizinho. Os animais olhavam-se, marcavam o território. Em redor, o povo quieto e mudo – mas os corações esbracejavam em sobressalto. Então, os bois surgiam, cegos de fúria, estalejavam os cornos. Se a chega fosse leal, turravam um bom bocado, sob a algazarra da gente a incitar o …

Pelos teus lábios
[14 Mar 2016 | Comentar | ]
Pelos teus lábios

NO Maio como as cerejas pelos teus lábios. Diz o homem do saco de cabedal à rapariga. E a rapariga abandona o largo. A correr, como se fugisse de rude tempestade. Pouco depois, regressam a rapariga, os irmãos e o pai. Caminham lestos, incitados pelo silêncio,
Foi ele!
voz de fogo, voz de fúria.
Pausa breve.
O cerco, e o homem cai por terra, sangue vivo esponta nos lábios. A rapariga, os irmãos (são três) e o pai assim legam o desconhecido. Partem, leves e libertos.
Muito lentamente, o homem se levanta. Sacode as roupas, …

Que morre devagar
[14 Fev 2016 | Comentar | ]
Que morre devagar

E DE quem são as casas, pergunta o homem do saco de cabedal. Olhe, medraram da ruína, lestas como tortulhos em grainha de uva. Foram nossas, do povo da aldeia que morreu devagar, porque ninguém tem pressa de ver Deus. Quem as explora? Disso não estou a par… Mas uma coisa é certa, desagrada-nos a pouca vergonha que arribou a esta terra. Até mulheres nuas, nuas como vieram ao mundo, nascem nas bordas do rio. Não é que a gente desgoste da caça. Sabe, a velhice: sentimos coelho na toca …

Fala do homem do saco de cabedal
[13 Jan 2016 | 3 comentários | ]
Fala do homem do saco de cabedal

VENDI o coração ao diabo por um copo de vinho e uma mão cheia de chamas. No vazio do peito dorme agora um seixo afeiçoado, redimido do rio. Tenho no saco de cabedal alguns livros de lirismo ateu e segredos luminosos: um dia serei árvore.
Texto inédito de Francisco Duarte Mangas relativo ao universo de O homem do saco de cabedal, Campo das Letras, maio de 2000, com ilustração de Inma Doval.

Mãos na cabeça
[15 Nov 2015 | Comentar | ]
Mãos na cabeça

DEVAGAR caminhavam, as mãos na cabeça. Viam o fascínio fresco do rio, na lentidão dos olhos adoravam as trutas. Nunca estes homens comeram um peixe. Na Primavera subiam, eles e o gado, ao monte: falavam às árvores, mascavam bagas azedas. Da margem esquerda do rio, bebiam a limpidez da água para desagasalhar o sono dos peixes. Abraçados à noite, endoideciam. Abraçados à noite.
Texto de Francisco Duarte Mangas publicado originalmente in O homem do saco de cabedal, Campo das Letras, maio de 2000, página 9, com ilustração de Inma Doval.

As palavras
[14 Out 2015 | Comentar | ]
As palavras

NO ALTO destas pedras, uma mulher, cabelo luzidio e olhos claros, reuniu a pequena comunidade. Falou em linguagem rude, áspera, como a vida de todos. No futuro esperam-nos dias felizes e abundância de frutos. Mas, antes de mais, devemos afastar do nosso caminho a ideia de deus. Ditas as palavras, um aguaceiro de pedras esmagava-lhe o olhar claro. Gorou-se, diz o homem do saco de cabedal, o primeiro gesto para salvar a humanidade.
Texto de Francisco Duarte Mangas publicado originalmente in O homem do saco de cabedal, Campo das Letras, maio de 2000, …