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Artigos com a tag: Álvaro Domingues

Rua da Estrada do encantamento clássico
[10 Ago 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada do encantamento clássico

REZAM lendas vindas da noite dos tempos que em Pombal vivia um mouro num grande palácio para onde trazia belas donzelas atordoadas pelas suas artes de sedução e amor. No alto do cerro tinha este príncipe o seu harém que ao mesmo tempo fascinava e amedrontava as beldades que por estas artes podiam ser fechadas para sempre no serralho a suspirar.
Na sua fúria de poder, os cavaleiros Templários julgaram ter morto o mouro mas o que juram muitos que viram é que numa clara noite de luar um certo fantasma …

Rua da estrada da máquina
[27 Jul 2017 | Comentar | ]
Rua da estrada da máquina

É PRÓPRIO dos humanos o fascínio pela máquina. Diferentemente das pedras ou dos paus usados como ferramentas básicas, a máquina é uma conjugação precisa de informação e matéria para que a engrenagem funcione de forma ordeira e tudo, seja fluído ou absolutamente rígido, encontre o seu lugar exacto, a forma e a sequência de operações que foi pensada para dirigir a energia mobilizada para uma determinada finalidade, enfardar palha ou disparar canhões.
Como produto da técnica e da sua infinita capacidade de magicar, a máquina parece ao mesmo tempo uma coisa …

Rua da Estrada do tanque debaixo do viaduto
[13 Jul 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada do tanque debaixo do viaduto

NÃO é fácil estabelecer a cronologia completa destas ocorrências. Talvez o viaduto, altíssima obra de arte com um risco de luz ao meio, tenha sido a última coisa que aqui brotou, e a água, a primeira. No entretanto, deve ter havido um caminho em tempos, depois estrada e outra vez estrada revista e aumentada com as obras do viaduto. Entretanto a água, como é de sua natureza, corre. O cano que a conduz é de plástico, material relativamente recente.
Outras coisas há que nos confundem, agora não por causa do tempo, …

Rua da Estrada do antropocénico ou antropoceno
[29 Jun 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada do antropocénico ou antropoceno

ESTÁVAMOS muito felizes na era do Holoceno. Vai para 15000 anos, mais ano menos ano, a Terra aquecia de febre, os glaciares recuavam, deixando atrás lagos e lagoas, o nível do mar subia e as bichezas e verduras entravam numa onda de variedade que parecia nova criação. Também os humanos prosperaram, tornaram-se fecundos, multiplicaram-se, povoaram a terra e dominaram-na; transformaram-se em objecto de temor e de espanto para todo o animal da terra, toda ave do céu, tudo o que se arrasta sobre o solo e todos os peixes domar, …

Rua da Estrada do contentor
[16 Jun 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada do contentor

HÁ coisas que de tão banais que são, se afastam do entendimento que delas devemos ter para que o mundo se nos pareça um pouco mais transparente. Quando assim acontece, nada como tropeçarmos nessas coisas quando nos aparecem sem estarmos à espera de tal: pintadas nas empenas das casas, por exemplo, sobretudo as casas que dispõem a fachada na perpendicular do eixo da via, oferecendo assim uma generosa superfície liberta de fenestrações para pintar mensagens estimulantes para o prazer do neurónio humano.
Assim são os contentores. Há tantos e de tantas …

Rua da Estrada da simultaneidade
[2 Jun 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada da simultaneidade

UMA das coisas que mais atrapalha as mentes é a simultaneidade – tudo ao mesmo tempo no mesmo lugar, contrariando a regra que coloca cada coisa em seu lugar.
Por isso se ouve dizer com certa frequência e muito azedume que aquela auto-estrada que voa pelos céus estragou este recanto bucólico de uma Primavera de glicínias em flor sobre muro e portão de refinadíssimo recorte social e arquitectónico. Que a glicínia suba pela palmeira acima, já não constitui tema de polémica; uns porque não distinguem palmeiras de glicínias, outros porque pensam …

Rua da Estrada das visões místicas de Cervantes e Lúcia
[19 Mai 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada das visões místicas de Cervantes e Lúcia

QUANDO deixei as planuras secas da Mancha e vim para estas terras de Portugal, pensei que todos aqueles fantasmas se tinham esfumado e a minha doce Dulcineia tivesse regressado ao sonho que me tem vivo. Pelo contrário. Perseguem-me visões.
Ó Princesa Dulcineia, senhora deste cativo coração, muito agravo me fizestes em despedir-me e vedar-me com tão cruel rigor que aparecesse na vossa presença.[1] Destes e de outros modos se carpia D. Quixote fazendo eco no silêncio de seu escudeiro.
Quando nisto iam, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento, que havia naquele …

Rua da Estrada do relicário
[11 Mai 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada do relicário

TUDO o que não se entende, se revela de forma fugaz, tudo o que nos parece grandioso e “transcendente” (que se revela para lá do que se conhece), tudo o que é insólito, novo, inexplicável, tudo o que nos maravilha e surpreende os sentidos e as emoções…, se pode transformar numa hierofania, numa manifestação do sagrado.
Pois se foram os homens que inventaram os deuses e os adoptaram, como poderia existir tão grande recusa ou dicotomia entre a sacralização e a secularização?
O homem profano passa a vida a inventar os seus …

Rua da Estrada do frango a jacto
[29 Abr 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada do frango a jacto

NÃO é preciso uma massa encefálica por aí além para entender o desgosto e a frustração de quem tem asas e não pode voar, nem sequer uma coisa breve para subir um pouco, ganhar vistas e horizontes, descrever duas espirais e voltar suavemente a aterrar. É um desespero; uma coisa que dá vontades de exorbitar o virtuosismo do falcão ou do condor, de ter penas mais sofisticadas que as de uma águia, a loucura de qualquer pássaro a riscar os ares na direcção que lhe der na gana.
Por isso Ícaro …

Rua da Estrada do galo no giratório
[21 Abr 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada do galo no giratório

PARA memória futura antes que a tinta desbote, fica registado que este galo é de Barcelos, das terras de Prado onde se fazia muita telha, louça e figurado ou estatuária. Desde que os visitantes da Exposição de Paris de 1937 receberam um galo de Barcelos das mãos da esposa de António Ferro, estava o bicho universalizado e o Estado Novo contente com o que propagandeava sobre a alegria e a imaginação do seu povo (a viver miseravelmente).
Muito antes das manobras folclóricas da ditadura, o galo tinha já um curriculum que …

Rua da Estrada dos reformados 1977
[14 Abr 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada dos reformados 1977

ABERTURA: que morno que está este dia!
Dizem (os franceses dizem) que a reforma foi uma ideia de Colbert – o super-ministro das finanças de Luís XIV – para atrair e fidelizar os melhores militares da marinha. Corria o ano de 1673. Muito tempo depois, como resultado da pressão socialista, em 1883, Otto Bismarck institui o sistema alemão de segurança social com base em prestações proporcionais ao rendimento, segundo um princípio geral de solidariedade entre gerações.
Hoje, os ministros e governantes andam enrascados com a sustentabilidade do sistema. Sustentabilidade é uma daquelas …

Rua da estrada da piscina seca
[7 Abr 2017 | Comentar | ]
Rua da estrada da piscina seca

AINDA que pouco espaçosa, uma piscina é obra para aplicar algum capital e por isso se deve pensar muito bem onde construir o dispositivo natatório – longe do ruído, afastado de olhares indiscretos, rodeado de amplas ervagens milimetricamente aparadas para o estender do corpo aos olhares e à carícia da tostadela solar. A piscina deve ser uma escavação elegante, um perfeito paralelepípedo vazado de inconfundível cor azul, rodeado de uma bordadura anti deslizante, livre de lesmas e sombreamentos. Usar calçada de granito no recinto dos banhos é pouco confortável; o …

Rua da Estrada do homem invisível sentado
[31 Mar 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada do homem invisível sentado

DESCANSADO que estava na Rua da Estrada, não me ocorreria pensar que ia tropeçar numas curtas e estimulantes palavras de Michel Serres[1] acerca do assunto asfáltico. O homem é uma autoridade universal na filosofia contemporânea e está tudo dito.
Dizia ele que no antigamente se sabia onde estávamos, onde íamos, de onde vínhamos e que caminho se fazia. Citando Leibniz, o às iluminado da matemática, para tudo devia existir uma situação óptima, calculada a partir de condições concretas, mesmo nos caminhos do mar onde tudo parece menos “concreto” do que na …

Rua da Estrada do fim do amor
[23 Mar 2017 | Comentar | ]
Rua da Estrada do fim do amor

AINDA era esta uma estrada real de empedrado escasso e incerto, ia eu com Dinis cavalgando lado a lado e ouvindo suas desventuras com certa dama. Dizia então:
Eu vivo por vós tal vida
que nunca estes olhos meus
dormem, mia senhor; e por Deus,
que vos fez de bem comprida,
querede-vos de mim doer
ou ar leixade m’ir morrer.
(…)
e assim desfiava seus desentendimentos de quem andava em cuidados por novas que não sabia de tão fremosa donzela. Assi andávamos em meio de flores do verde pino e outras de pessegueiro quando aparece uma criatura que …