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Rua da Estrad...

Rua da Estrada sem passadeira

Foto: Álvaro Domingues

JUNTO aos templos, apesar do povo andar bastante arredado de cerimónias e rituais e faltarem sacerdotes para oficiar em todas as capelas, devia haver semáforos e passadeiras para aumentar a segurança dos transeuntes, quaisquer que sejam, crianças, adultos e quadrúpedes.

A calma aparente de uma mãe acompanhada por criança pequena, ainda que o minorca pareça sossegado e submisso aguardando instruções da progenitora, pode ser um engano que o instante captou. Topa-se pela orelha em riste, qual radar pressentindo automobilista em excesso de velocidade, desrespeitando o artigo 25º do Código da Estrada que diz que sem prejuízo dos limites máximos de velocidade fixados, o condutor deve moderar especialmente a velocidade:

– À aproximação de escolas, hospitais, creches e estabelecimentos similares, quando devidamente sinalizados (não se sabe porque é que nesta lista não há referências a locais de culto);

–  Nas localidades ou vias marginadas por edifícios;
–  À aproximação de utilizadores vulneráveis;
–  À aproximação de aglomerações de pessoas ou animais;

O mesmo código, muito insistente em matéria de veículos puxados por animais – coisas do antigamente, do tempo em que os animais não sabiam conduzir e não havia cavalos nos motores -, é praticamente omisso em assuntos de bestas que não puxam carros nem são equiparados a peões. De vez em quando vêem-se triângulos com uma vaca de perfil, às vezes um cavaleiro e outras, um veado a saltar. A outra zoologia está muito desaparecida, apesar da abundância de exemplares secos e espalmados no asfalto, quais tatuagens.

Noutro capítulo, o mesmo código diz que a entrada de gado na via pública deve ser devidamente assinalada pelo respectivo condutor e fazer-se por caminhos ou serventias a esse fim destinados. Em matéria de gado, nem sempre o condutor está presente, verificando-se até que muitos cães condutores de rebanhos são completamente embotados ou suicidas sem serem sequer capazes de se assinalarem a si próprios, precipitando-se para o asfalto de qualquer maneira. As alternativas, os ditos caminhos e serventias para gado, são conhecidos por caminhos de cabras, pedregulho, buracos e lamaçal. Talvez sirvam para pequenos ruminantes e provas de todo o terreno, mas não é coisa para mamíferos corpulentos.

Há ainda a registar um espelho convexo e um sinal Stop. Ajuda, claro, mas não é suficiente. Mãe que é mãe, emancipada, liberta da opressão de andar presa pela corda, responsável, cuidadosa, é mãe que não confia na divina providência – são vozes que não chegam ao céu – e trata de educar os infantes na perigosa missão de conviver com os bípedes racionais. Apesar da maior parte destes solípedes ter sido banida por causa das máquinas e dos transportes motorizados, persistem alguns e persiste também esta teima em não avançar de qualquer maneira para o perigo da viação acelerada, fazendo longas pausas com o conforto do sol do inverno, longe dos humanos e das suas burricadas.

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

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