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Rua da Estrada dos reformados 1977

Rua da Estrada dos reformados 1977

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ABERTURA: que morno que está este dia!

Dizem (os franceses dizem) que a reforma foi uma ideia de Colbert – o super-ministro das finanças de Luís XIV – para atrair e fidelizar os melhores militares da marinha. Corria o ano de 1673. Muito tempo depois, como resultado da pressão socialista, em 1883, Otto Bismarck institui o sistema alemão de segurança social com base em prestações proporcionais ao rendimento, segundo um princípio geral de solidariedade entre gerações.

Hoje, os ministros e governantes andam enrascados com a sustentabilidade do sistema. Sustentabilidade é uma daquelas palavras que não custava nada estraçalhar pela pouca utilidade que tem como todas as palavras que de tanto gastas perderam a sua capacidade de comunicar e explicar o que quer que seja. Como são auto-explicáveis (ou assim são entendidas), a sua finalidade última é neutralizar o confronto de opinião e validar automaticamente aquilo que o mensageiro pensa que a mensagem deva ser.

Dizem então que como a esperança média de vida aumenta, aumenta também o número de anos em que se recebe reforma. Dizem também que com a crise do emprego, são cada vez menos os que contribuem para a segurança social. Com o envelhecimento da população, desequilibra-se ainda mais a proporção e assim sucessivamente. É tudo verdade.

A questão deve ser das gerações, então. As gerações, por definição, não são iguais. A geração do trabalho manual, trabalhava em fábricas e serviços onde a massa salarial, os descontos, o rendimento bruto, a produtividade, etc. ainda tinham alguma relação com o número de gente empregada. A geração da automação e da electrónica funciona no modelo inverso. Quanto mais electrónica e automação, menor emprego e massa salarial (comparados com o volume de produção) e maior produtividade. Como era lindo pensar que as máquinas iam substituir o suor do trabalho e inaugurar uma era de felicidade! No ano de 1811, em Nottingham – terra do Robin dos Bosques -, os trabalhadores têxteis começaram a destruir teares movidos a vapor, as máquinas que, ao mesmo tempo que multiplicavam trabalho humano, desumanizavam ainda mais a própria relação salarial, impondo ritmos e jornadas de trabalho longas, penosas e mal pagas. O problema não estava nas máquinas mas na forma como eram maquinadas para o interesse de quem as punha a maquinar. Por isso eram odiadas.

Parece então que a tal solidariedade entre gerações cuja “sustentabilidade” depende do equilíbrio entre os que descontam hoje e os que receberão reformas mais tarde, terá que se resolver com uma equação diferente que combine o trabalho dos humanos com o das máquinas, para que haja alguma justiça entre a reforma dos humanos, a reforma das máquinas e a reforma do sistema. Imagine-se uma geografia económica na qual as máquinas e os empregos bem pagos (poucos) estão num lugar, e outras tarefas da mesma fileira produtiva ou até da mesma empresa, estão noutra geografia onde os salários são miseráveis (muito) e nem reformas há. Para além do capitalismo que ganha sempre, quem é que garante a redistribuição no tempo e no espaço entre produção, produtividade, níveis salariais, reformas, direitos sociais e tudo o resto? Ninguém, diria o romeiro. É o milagre da globalização sustentável sustentando paraísos fiscais e fortunas incontáveis nas mãos de cada vez menos. Como a globalização é ingovernável e o Estado se vai derretendo, anda o diabo à solta.

Regressará então Robin o justiceiro fora de lei (o romeiro foi para a romaria pregar moral) equipado não sei com que artilharia para pôr este bosque em ordem – roubar aos ricos para dar aos reformados pobres para que se possam sentar com alguma serenidade, gozando a modorra do sol de Abril, protegidos das ameaças do asfalto pelo fosso onde nadam crocodilos transparentes que comem automóveis e neoliberais sustentáveis.

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

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