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Rua da Estrada do caos

Rua da Estrada do caos

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OS do tempo das antiguidades gregas que pensavam e escreviam sobre tudo o que havia desde o início do mundo, os deuses, os titãs e as ninfas, colocavam aí a dobra primordial que, do lamaçal informe, escuro e pantanoso, deu lugar à criação das coisas organizadas: os espíritos do ar, as nuvens, o ribombar dos trovões, as faíscas que se elevaram e formaram as estrelas e o sol. De noite, a lua aparecia, ora cheia e luminosa, ora apenas um delicado crescente com finas pontas até desaparecer e voltar de novo.

Antes disso era o caos, massa silenciosa e vazia, a luz misturada com as trevas em infinitos tons de cinzentos, a água e a terra enlameadas na mesma substância, o tempo parado, internet em baixo, lâmpadas fundidas. No caos as coisas eram incompreensíveis, não tinham recorte nítido, hierarquia; não tinham os lugares correspondentes porque nem lugares havia. Tudo era irregular, ambíguo e, não havendo possibilidades para o excepcional, tudo era inesperado, sem repetições. A regra era a contingência. A água quente podia não arrefecer e mesmo as pedras que não havia podiam suspender a queda, estacar e andar em círculos viciosos. Assim era.

Passou muito tempo até que tudo se compusesse suficientemente para se começar a perceber a matéria de que era feito o mundo e de como se organizavam as formas, as cores e as relações entre elas: barcos azuis e brancos, automóveis metalizados, casas amarelas e vermelhas com telhados cor de telha, contentores, betão cinzento, pontes pintadas de verde, estores claros, asfalto cinza toupeira, pinheiros verdes, fios pretos, postes de tonalidade indefinida e muitas outras ocorrências. Os barcos navegam, os telhados estão sobre as casas, as pontes são grandes, o asfalto aquece com o sol e se não houver postes, prendem-se os fios aos pinheiros.

Estava tudo tão claro e organizado que bastou um barco posto fora da água, a forma um pouco mais caprichosa de uma casa, uma escadaria praticamente a desaguar na estrada, o pilar enorme de uma ponte assestado num quintal de traseiras, a própria ponte parecendo poisar nos telhados…, e dizia-se novamente que era o caos, que se tinha perturbado a ordem das coisas.

O povo está sempre a inventar relatos para a maledicência. Sabendo que haverá tantas coisas organizadas quantas as desorganizadas, as repetidas quantas as inesperadas, a excepções tantas quanto as regras, talvez seja melhor admitir a existência de várias regularidades irregularmente combinadas e abandonar a ilusão de tudo proteger da mudança pensando que as regularidades correspondem a ordens e hierarquias rígidas e infinitas, para todo o sempre repetindo o que já se sabe ou pensa e o que já se viu. Um mundo parado.

SOBRE O AUTOR:
Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde também é investigador no CEAU-Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. É autor de A Rua da Estrada. Colabora com o Correio do Porto desde janeiro de 2015.

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