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Rua da Estrad...

Rua da Estrada das visões místicas de Cervantes e Lúcia

QUANDO deixei as planuras secas da Mancha e vim para estas terras de Portugal, pensei que todos aqueles fantasmas se tinham esfumado e a minha doce Dulcineia tivesse regressado ao sonho que me tem vivo. Pelo contrário. Perseguem-me visões.

Ó Princesa Dulcineia, senhora deste cativo coração, muito agravo me fizestes em despedir-me e vedar-me com tão cruel rigor que aparecesse na vossa presença.[1] Destes e de outros modos se carpia D. Quixote fazendo eco no silêncio de seu escudeiro.

Quando nisto iam, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento, que havia naquele campo. Assim que D. Quixote os viu, disse para o escudeiro:

– A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.

– Quais gigantes? – disse Sancho Pança.

– Aqueles que ali vês – respondeu o amo – de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas.

– Olhe bem Vossa Mercê – disse o escudeiro – que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mós.

– Bem se vê – respondeu D. Quixote — que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha.

De súbito, do meio dos gigantes emergiu uma figura de mulher resplandecente que uma menina, Lúcia, descreveu detalhadamente: Um manto branco que da cabeça chegava ao fundo da saia, era dourado da cintura para baixo dos cordões a atravessar e de alto a baixo e nas orlas era o ouro mais junto. A saia era branca toda e dourada em cordões ao comprido e a atravessar, mas só chegava ao joelho; casaco branco sem ser dourado, tendo nos punhos só dois ou três cordões; não tinha sapatos, tinha meias brancas, sem serem douradas; ao pescoço tinha um cordão de ouro com medalha aos bicos; tinha as mãos erguidas; tinha nas orelhas uns botões muito pequeninos e muito chegados às orelhas; separava as mãos quando falava; tinha os olhos pretos; era de meia altura.

– Ó senhora das minhas ações, caríssima e incomparável Dulcineia del Toboso, se é possível que cheguem aos teus ouvidos as preces e rogos deste teu venturoso amante, por tua inaudita beleza te peço que os escutes, pois cifram-se apenas em implorar-te que te não recuses a dar-me o teu favor e amparo, agora que tanto deles preciso. Vou despenhar-me, sepultar-me e sumir-me no abismo, que aqui se me escancara, só para que o mundo conheça que, se tu me favoreceres, não haverá impossível que eu não cometa e alcance.

– Rainha, princesa e duquesa da formosura, seja Vossa Altivez servida de receber com boa graça e boa vontade o vosso cativo cavaleiro, que está ali feito de mármore, todo turbado e sem pulso, por se ver na vossa magnífica presença; eu sou Sancho Pança, seu escudeiro, e ele o afamado cavaleiro D. Quixote de la Mancha, conhecido pelo nome de Cavaleiro da Triste Figura.

A este tempo já D. Quixote se pusera de joelhos ao pé de Sancho, e mirava com olhos pasmados, e vista turva, aquela a quem Sancho dava o nome de rainha e senhora. Fez-lhe uma vénia, levantou-se outra vez e perguntou-lhe:

– O que é que vossemecê me quer?

– Quero dizer-te que voltes lá à Cova da Iria; se não tivessem abalado contigo para a Aldeia seria o Milagre mais conhecido; havia de vir S. José com o Menino Jesus dar a paz ao mundo e havia de vir Nosso Senhor benzer o povo, vinha Nossa Senhora do Rosário com um anjo de cada lado e Nossa Senhora com um arco de flores à roda.

– Aquele dinheiro que vossemecê tem, o que é que vossemecê quer feito dele?

– Com aquele dinheiro façam dois andorzinhos pequeninos; um leva-o tu mais três meninas como tu e vão de branco; o outro leva-o o Francisco e mais três meninos como ele; levem uma capa branca, levem-no à Senhora do Rosário e apliquem-no a ela.

– Este é o lugar, ó céus! Que eu escolho para chorar a desventura em que vós mesmos me haveis posto. Este é o sítio em que o tributo dos meus olhos há-de aumentar as águas daquele arroio, e meus contínuos e profundos suspiros estremecerão sem descanso as folhas destas árvores selváticas, em testemunho da pena que o meu coração perseguido padece. (…) Ó Dulcineia del Toboso, dia da minha noite, glória da minha pena, norte dos meus caminhos, estrela da minha ventura (assim o céu ta depare favorável em tudo que lhe pedires!) considera, te peço, o lugar e o estado a que a tua ausência me conduziu, e correspondas propícia ao que deves à minha fé!

A suposta Dulcineia quebrou o silêncio, dizendo com muito mau modo:

– Tirem-se do caminho…

depois abalou pelo ar acima e eu disse adeus.

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

[1] O texto em itálico corresponde a transcrições de Miguel de Cervantes, El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha, 1605 (http://miguelde.cervantes.com/biografia.php) e dos interrogatórios à vidente Lúcia de Jesus Santos, 1917, in Documentação Crítica de Fátima Seleção de documentos (1917-1930), Santuário de Fátima, 2013 (http://www.fatima.pt/pt/download?file=http://www.fatima.pt/files/upload/fontes/F001_DCF_selecao.pdf)

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